Exacerbado


Título? Preferiu deixar para depois. No papel a mistura de letras e palavras. Na cabeça, o mix de idéias. A confusão se tecia em fios de seda. A tinta azul os regava corando os pensamentos. Os riscos e rabiscos, o tom da censura. O copo de uísque, a embriaguez e a loucura. Um bon vivant? Uma tarefa? Luxo do trabalho. Sem atenção nem dedicação. Não discuta. Ah como ele queria. Pois bem, não pode mais. Perdeu a chance. Melhor, largou-a. Pôs tudo de lado. Círculos. O andar o estonteava e o desfocava. Náuseas. Provocação. Sentimento. Ausência de. Queda. Urros. Dor. Levantou-se num ato único. Pegou caneta e o papel. Jogou longe. Resgatou a folha. Amassou-a. a tarefa ficou em branco, assim como suas lembranças. Seu nome. Cama. Sol. Sapato. Cigarro. Carro. Trabalho. Sem pudores... Reclamação. Muitas idéias. Pouca coerência. Cigarro. Almoço, já não o tinha há décadas. Ficou com o pacote de bolacha água e sal. Estava tão nutrido. Folhas ao alto. Carro. Cigarro. Cerveja. Casa. Chuveiro. Cama. Decidiu mudar. Amanhã recomeçaria sua vida. Colocaria os devidos pingos nos is. Pela décima vez. Mas iria mudar. Mundo Moderno?

Desconcerto


Assento preferencial. Leu a indicação. Encaixou-se no perfil. Nunca se imaginou nessa situação. Abandonado. Ele que era tão querido. Ao menos fingiam muito bem. Bastou a viuvez que toda a farsa foi revelada. Só não afirma que foi assaltado porque não foi agredido nem forçado. Se diz enganado, pois acabou convencido que não havia outra alternativa. Agora, sabia do antônimo das idéias. Dona Lapa ainda estava só. Ele, viúvo. Mesmo após tantos anos - olha que a infância de ambos foi há muito atrás.... - sabia que ia dar certo. Os filhos foram capaz de dizer ao velho que a pobre senhora tinha arranjado um matrimônio. Filhos? Já não sabia mais se poderia considerá-los. Estes o internaram após noticiar o falso matrimônio da vizinha solitária. O pai entrou desconsolado no abrigo. E só piorava. Nem mesmo as visitas recentes da sua senhora amada, paixão de infância, o faziam mudar. Os convites insistentes dela para sair dali e ir morar junto a ela - recusou todos. Não aceitava. Não o alegrava a idéia de que somente com a aposentadoria dela, conseguiriam sustentar ambos. Ele já não tinha mais rendimento. Os filhos recebiam a aposentadoria com uma falsa procuração alegando péssimo estado mental do vulgo pai. Desgosto. De tanto, adoeceu. Padeceu. No enterro, os ditos filhos e Dona Lapa. Os primeiros nem sequer um centavo arrumaram para o fúnebre evento. A amada fez empréstimo para pagar todas as despesas. Não se importava. Queria dar ao velho ao menos essa prova de amor. Enquanto aquele homem viveu teve de tudo. Agora que não passava de um pedaço de matéria orgânica, obteve o que mais queria: Valor. Vida? Ironia. Gratidão. Graça. Falta de.

Copan.

Sonhos nunca acabam bem. Simplesmente porque nunca acabam. São como um elevador panorâmico que a partir de um determinado momento desce ao subsolo. Ou pior. Desce a partir de uma queda livre. Poderia ser mais fácil acordar e encarar toda essa realidade. A cada instante uma deusa passa despercebida diante de seus olhos. De onde vem toda a sua insistência? Levantar não é um suplício; andar menos ainda. É mais fácil enxergá-las por uma janela, uma luneta cirúrgica. Você é tão fotográfico, libera todo o seu instinto pelas mais belas raridades. E lá está. Tão dinâmica e tão rumada. Fotografa sem pudor. Vai à câmara escura e revela. Vai ao momento obscuro e revela-se. Faz do dinâmico tão estático em pequenos gestos capturados. E do que vale viver num quadrado, dentro de um prédio cheio de curvas femininas? Alto ali do décimo andar, o centro do universo em lentes de aumento. Do lado de fora das paredes, tudo está exposto. Do lado de dentro, um universo ainda não se expandiu. São fotos, ou cômodos. São momentos, ou comodidades. O progresso seria um elevador vertiginoso. No térreo, um salto para o que falta enxergar.

Árvore.

Cresce como planta. O seu desejo é sempre o mesmo. E está ali, do outro lado da calçada se equilibrando no meio fio. O que é tudo isso? De onde surge e para onde vai todo esse momento? Às vezes é difícil perceber como as coisas acontecem; os fatos seriam fatos naturalmente ou apenas forjados para ocorrer? De todos os transeuntes é ela a menina bordada de flores. Sai da janela, troca-se, abre o portão de casa e vai a padaria. Fim de tarde é tudo tão sórdido. Tudo se conforma desse jeito quando o sol se põe? No horário de verão isso se estende um pouco mais. Um tempo adicional para tentar dizer um oi. O tropeço no paralelepípedo não é algo que te impeça, mas algo de que se gargalhe. Risos de todos. Sujeira. Vale à pena ainda comprar um lanche. O troco é certo. A moça florida está no mesmo lugar e vale apenas lhe presentear com balas. O sorriso é um paraíso. Um estalo no rosto é o começo de um delírio. Em casa, tratou de sonhar imediatamente. A queda, a ascensão e o troco são situações pelas quais não se pagam.

Oportunidade


Céu azul. Sua íris era azul como o firmamento que observava. Ela chegou. Ao vê-la, suas pupilas dilataram. Sentiu algo estranho por dentro. Já havia experimentado aquela sensação. Cumprimentou-a. Seu coração tendeu a uma leve taquicardia, enquanto suas mãos suavam. Sua cabeça a tinha como amiga, como a companheira de brincadeiras de infância. Seu coração não. Esta parte ignorava os doze anos de convivência, companhias, viagens, acampamentos no quintal, cumplicidade, travessuras e abraços apertados. Ela, contava alegre sobre o carinha do cursinho, mas sem muito entusiasmo. Ele queria gritar, revelar seus sentimentos, mas se segurava. Ao ouvi-la utilizar tantos elogios para designar o novo conhecido, rugiu. Ela não estranhou, pois o havia feito de propósito. Já o conhecia. Já o entendia. Já o queria. Mas ele nunca vem atrás. Fingindo estar atrasado, ele se despediu rumando ao compromisso inexistente. Antes, lhe deu um beijo longo, úmido e acalorado na bochecha. Ah como eu queria que fosse um pouco mais pro meio - tal pensamento passou na cabeça de ambos. Ela foi embora, um tanto quanto desconsolada. A Oportunidade ia embora também rindo da falta que sua colega, Coragem, fazia - enquanto esta última se escondia em algum beco.

Desejo


O relógio despertou. O céu ainda escuro. Sabonete aqui, água ali. Shampoo cá, condicionador acolá. Enxugou-se. Vestiu-se, mas não calçou o salto. Aspirou brevemente o copo de café, com gosto de rotina. Escovou os dentes. Maquiou-se - o batom vermelho queimado combinava ao mesmo tempo que contrastava com sua tez branca "claríssima", como gostava de definir. Perfumou-se, utilizando o Eau de Toilet francês que ganhara no Natal. Para ela, aquele vidro valia muito mais que sua própria vida. Nunca entendera porque o ganhara - nunca tinha saído com seu chefe, nem beijado quiçá dormido. Homem casado, eu jamais ficaria - fixava em sua mente. Mas seu chefe era diferente. Um cinquentão bem arrumado. Casado, três vezes. Com filhos. A atual esposa era uns trinta anos mais nova. Também lhe deu um filho. Volte à realidade, ele jamais lhe dará bola. Não conseguia. Pegou o ônibus. Entrava às 8h. As 9h saiu do trabalho, com demissão aceita e um chefe ainda atordoado. Finalmente, coração vazio. A alma? Deixara dentro daquela sala. Ainda gostava de sofrer.

Trevo.

É como forçar como as pálpebras. Os seus olhos estavam estranhos. Não estavam mais bonitos. É difícil pensar desnutrido, não dá pra ficar dessa forma. Você não mais acordou pra si. Decidiu escapar. Em algum lugar você está tão farto e tão sozinho. Nada mais lhe cabe, a não ser uma angústia tenra. Você vestiu a roupa, encheu o tanque e tomou a pista livre. Um destino. Tudo o que pôde dar a si mesmo. Um caminho. Num instante só era muito fácil mudar a rota, escolher a entrada a seguir. E sumir. Não vai se arrepender. Ademais, o que lhe prende? Se a roupa não lhe serve é melhor não vestir. Você vai encaixar-se perfeitamente. Vai ver só. Basta respeitar-se e olhar para os lados. Não é difícil. Você vai ser coletivo. Um plural. E não vai nem perceber. Mágico, assimétrico e em um transe casual que o libertará num piscar de olhos terceiros. Agora só resta dirigir e levar a sua bagagem humanóide. Mas antes, pare naquela esquina e tome um café. Aí você não desiste e dá um tempo da paciência lhe alcançar. E lhe acompanhar, quem sabe.

Alado.

Um salto para trás. De qualquer forma você nunca compreendeu. E não se pergunte mais. Ela te elogiava daquele jeito e você impenetrável. Ela moça comprometida e você transeunte na escuridão. Ela esculpindo um busto seu e você virando as costas para seguir o seu caminho. Mortal para frente. De qualquer forma você não quis mais entender. E não pergunte a ninguém mais. Ela agindo normalmente e você com cara de paisagem. Ela lhe pedia os favores e você agia calado. Ela abria um sorriso enorme e você sendo nada mais do que educado. Cambalhota e parada de mãos. De qualquer forma você quer sair daí. Ela não sabe e você não vai dizer a ninguém. Ela é meiga e só por ela você arruinaria tudo. Ela vai viver a sua vida e você pensa melhor. É melhor seguir em frente. Há muitos sorrisos sorrindo em quadras distantes. Você prefere que um talvez ou um sei lá mude tudo. Lúdico. Ela vai querer você pra toda vida. Você quer levantar um vôo oculto. Sem destino nem fundamento. Afinal, não vale mais à pena arremeter as vontades. Gratidão ≠ paixão.

Evaporar.

Debaixo do toldo da padaria você mordia um pão seco e insípido tal como a sua morbidade. Tudo tão bucólico naquele dia. Tudo tão bucólico a sua vida inteira. Muito simples. Andou. Atravessou a praça e ali viu. As pombas contornavam o caminho dela. Apressada. Um rastro de mulher cruzou a sua sombra. Num salto um salto quebra-se. Tornozelo torcido; uma tragédia contemporânea. Desconcerto e folhas voando com as pombas. De repente, um ímpeto se destaca. O seu. Queria ajudar. Queria ajudar e dizer um oi. Escorou-a em uma rampa com corrimão. Você apontou a loja de calçado e, com os pés nus salpicou passos até lá. Você catou as folhas ao vento. Juntou-as, organizou-as, leu-as razoavelmente. Foi até a loja e a moça não estava mais lá. Suspiro desalentado. Saudade desconhecida. Era aquela mulher ali que você havia tocado. Era aquela mulher que foi-se e por isso lhe tocou. Os papéis voadores viraram recordação. De volta a padaria, pediu um café. Sorveu uma lembrança; tão perto e tão vaga. Dos papéis, o cheiro de um perfume cítrico. Do salto, um pedestal para exaltar os desejos casuais. Acostumar.

Inconteste.

Já é lá pelas tantas horas da noite e você já passou da hora de sair do trabalho. Terminou as ligações, fechou a contabilidade e dirigiu-se para o cafezinho. Sorveu um pingado velho, tirou a gravata e pôs no bolso. Dentro do bolso da calça a recordação: um bilhete da filha; era, enfim, o primeiro aniversário que você iria vê-la, depois de 15 anos sem direito a custódia. Você levaria um presente especial. Atravessou a rua, viu bijuterias de um camelô amigo do pasteleiro. Teve receio e não comprou. Chegou na festa. Viu a filha; formosa, linda. Quase não a reconheceu. Abraçou-a apertado e disse que esqueceu o presente, que traria numa próxima visita. Traria. Envergonhou-se mentalmente, pois 15 anos depois da traição da esposa não tomara juízo para consigo mesmo. Traíra. O que é uma vida sem vida? Sua perspectiva era uma planilha de Excel; um documento guardado em uma mente eletrônica burra. No limiar de si, quem é o vilão? A esposa dona de casa, o marido work-a-holic ou a secretária ordinária da mesa ao lado? O culpado é quem se submete; seja a tentação, o descaso, a inveja ou a conspiração. O pecado é deixar-se acreditar. Teimosia.

Imensurável.

De repente resolveu descer as escadas. Sem rumo, decidiu descer até o penúltimo andar da estação, na linha X. Ela estava lá. Você agora sem fôlego. Pra que tão depressa? Hoje é sexta-feira; já é tarde. Ela deixa cair um papel. Alguém pisa, segura e entrega de volta. Era um moço alto, negro. Ela agradece discretamente e entra no vagão do trem, perguntando as horas para uma senhora. Você também entra, empurrando as pessoas. Ela te olha, reconhece e lembra de você. Escancara um sorriso estranho. Ela envelheceu. Quanto tempo passou. Você segue ela; faz baldeação, troca de trem e ela avisa que vai descer estação antes da sua. Antes de sair, você vai dizer que ainda a ama. Não dá tempo. E agora, vai cabular o trabalho de novo? Do outro lado da cidade, alguém te liga. Sua namorada pede para assistir um filminho. Do outro lado do coração, alguém não se toca.

Estrondo.

Camisa abotoada, bermudas e mocassim marrom. Domingo é dia de passear. Pegou o automóvel e saiu para buscar os filhos. Cheiro de carro novo. Vontade de beber água de coco. O calor ardia à pele branca da menina mais velha. Passaram no drive trhu de uma lanchonete; compraram sorvetes. Vontade de tomar um banho na água do mar. Pararam para abastecer, compraram quadrinhos e pediram informações. Cheiro de gasolina. Desabotoou levemente a camisa para compensar o calor. Saíram, embora, sem rumo. Sem resistência nenhuma chocaram-se com um veículo apressado. Gritos. Sirene. Assistência. Cheiro de óleo queimado. Todo mundo estava bem, exceto o que dirigia. Vontade de tirar satisfação. No outro carro, alguém estragou uma suspensão, um farolete e um dedo médio. Em suma, um estrondo. Quem tem razão? Cheira a fim de semana acabado. Vontade de esperar segunda-feira calado.

Estranho.

Deitou-se. Cansara daquele dia. Havia muita poeira, muito torpor. Não dava para acreditar naquilo tudo. Cansara daquela vida. Queria vestir uma roupa diferente. Saíra à procura e vestira-se. Pagara barato; o brechó fora ideal. Todos o olhavam, era estranho. Andara engraçado. Passara a entender tudo como deboche. Sem olhar para trás. Arrependimento era um ponto fraco. Ouviu música. Animou-se; agradou as pessoas ao redor. Pedira as horas, os cumprimentos e uns trocados. Andou depressa em direção a uma marcha de carnaval. Dançou. O calor borrou a maquiagem. Recompôs-se à sombra de uma árvore frondosa. Não era aquilo que havia pensado. Omitira-se. Saíra por uma travessa e encontrara-se casualmente sozinho. Era você ali, no topo do edifício. Esfregara os olhos, sentira-se ameaçado. Talvez uma ironia; uma incoerência tomara conta de si. Acordou assustado. Era um pesadelo qualquer. Abandonou o quarto e foi ao brechó.

Paara.

Entrou, sentou e esperou começar. Era mágico, uma espécie de timbre que tocava o âmago inexplicavelmente. Ficou de pé; era o começo. Gritou, falou alto e ninguém o ouviu. Na penumbra, era invisível a sua aparência. Tocaram a primeira. Um choque atravessou seu corpo. Cantou a segunda. Beijou. Não sabia quem era. Talvez só o momento. Depois bebeu, dançou, caiu, seguiu em frente e cantou a terceira. Não sabia mais o que faria. A cabeça não pensava em mais nada. O coração não insurgia. Mas de repente apareceu um rosto conhecido. Era a primeira, aos prantos. Na primeira, o desalento. Na segunda, a libido. Na terceira, a embriaguez. Parou de andar. Escorou-se num muro e pôs para fora toda a impureza. No revés, respirou fundo. Caiu em si e atravessou a rua. Não era aquilo mesmo. Não era ninguém.

Absorva.

Estacionei na esquina. Foi entrar ali e ver. Você beijava como ninguém; mas era outra pessoa. O som, o tom e a minha cor empalideceram, direcionados a chocar a ojeriza própria. O meu corpo pedia o seu. O meu sonho, não. As verdades se fizeram tão presentes; a minha razão estática, o sentimento também. Você me via, mas só eu lhe enxergava. Beijei-lhe no rosto. Tirei-lhe uma foto. Sorri. Os dentes e o rosto cumpriram uma ordem forçada. O corpo também; já não valia mais nada. O âmago doeu; rasgou-se feito véu num limbo que só existiu pra mim. Sorvi água com quinino e sofrimento. A amargura estava montada. O escarcéu mental estabelecido. Sorri. Não me despedi; Alcancei o carro e tropecei em mim mesmo. Corri atrás de um motivo para chegar em casa. Sumi. Cortina de ilusões.

Em pratos limpos.

Lá vem ele. Calmo, elegante, em seu terno bem cortado; atlético, sábio, dono de si e o meio sorriso que não sai de seus lábios ao apertar as mãos de quem o cumprimenta, de quem o encara nos olhos. Sem soberba. Não se importa com o tapete vermelho estendido para os próprios pés. Apenas entra, senta e discute. Sem mais prerrogativas.
Entrou. Dirigiu-se para a atendente e, muito educadamente, pediu pra falar com a moça do caixa 06. Ela lhe deu uma senha. Pegou, sorveu um café e passou na frente da espera. Chegou antes do próximo.
Ela o reconheceu. Ele entrou em seus olhos e disse:
“Eu já não sei se
O sentimento condiz
Com o pensamento;
Se a coração compreende
A espera;
Se a esfera é a redoma
Ou a liberdade.

O que é fraterno é mantido.
O que está fora se expande;
Coletiva-se.
Faz-se infinito,
Embora perdido
Na dimensão do que
Quem sabe,
Se sabe.”

Abriu o cofre.
Fez o resgate.
Foi um assalto.