Desconcerto


Assento preferencial. Leu a indicação. Encaixou-se no perfil. Nunca se imaginou nessa situação. Abandonado. Ele que era tão querido. Ao menos fingiam muito bem. Bastou a viuvez que toda a farsa foi revelada. Só não afirma que foi assaltado porque não foi agredido nem forçado. Se diz enganado, pois acabou convencido que não havia outra alternativa. Agora, sabia do antônimo das idéias. Dona Lapa ainda estava só. Ele, viúvo. Mesmo após tantos anos - olha que a infância de ambos foi há muito atrás.... - sabia que ia dar certo. Os filhos foram capaz de dizer ao velho que a pobre senhora tinha arranjado um matrimônio. Filhos? Já não sabia mais se poderia considerá-los. Estes o internaram após noticiar o falso matrimônio da vizinha solitária. O pai entrou desconsolado no abrigo. E só piorava. Nem mesmo as visitas recentes da sua senhora amada, paixão de infância, o faziam mudar. Os convites insistentes dela para sair dali e ir morar junto a ela - recusou todos. Não aceitava. Não o alegrava a idéia de que somente com a aposentadoria dela, conseguiriam sustentar ambos. Ele já não tinha mais rendimento. Os filhos recebiam a aposentadoria com uma falsa procuração alegando péssimo estado mental do vulgo pai. Desgosto. De tanto, adoeceu. Padeceu. No enterro, os ditos filhos e Dona Lapa. Os primeiros nem sequer um centavo arrumaram para o fúnebre evento. A amada fez empréstimo para pagar todas as despesas. Não se importava. Queria dar ao velho ao menos essa prova de amor. Enquanto aquele homem viveu teve de tudo. Agora que não passava de um pedaço de matéria orgânica, obteve o que mais queria: Valor. Vida? Ironia. Gratidão. Graça. Falta de.

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