O relógio despertou. O céu ainda escuro. Sabonete aqui, água
ali. Shampoo cá, condicionador acolá. Enxugou-se. Vestiu-se, mas não calçou o
salto. Aspirou brevemente o copo de café, com gosto de rotina. Escovou os
dentes. Maquiou-se - o batom vermelho queimado combinava ao mesmo tempo que
contrastava com sua tez branca "claríssima", como gostava de definir.
Perfumou-se, utilizando o Eau de Toilet
francês que ganhara no Natal. Para ela, aquele vidro valia muito mais que sua
própria vida. Nunca entendera porque o ganhara - nunca tinha saído com seu
chefe, nem beijado quiçá dormido. Homem casado, eu jamais ficaria - fixava em
sua mente. Mas seu chefe era diferente. Um cinquentão bem arrumado. Casado,
três vezes. Com filhos. A atual esposa era uns trinta anos mais nova. Também
lhe deu um filho. Volte à realidade, ele jamais lhe dará bola. Não conseguia.
Pegou o ônibus. Entrava às 8h. As 9h saiu do trabalho, com demissão aceita e um
chefe ainda atordoado. Finalmente, coração vazio. A alma? Deixara dentro
daquela sala. Ainda gostava de sofrer.
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