Evaporar.

Debaixo do toldo da padaria você mordia um pão seco e insípido tal como a sua morbidade. Tudo tão bucólico naquele dia. Tudo tão bucólico a sua vida inteira. Muito simples. Andou. Atravessou a praça e ali viu. As pombas contornavam o caminho dela. Apressada. Um rastro de mulher cruzou a sua sombra. Num salto um salto quebra-se. Tornozelo torcido; uma tragédia contemporânea. Desconcerto e folhas voando com as pombas. De repente, um ímpeto se destaca. O seu. Queria ajudar. Queria ajudar e dizer um oi. Escorou-a em uma rampa com corrimão. Você apontou a loja de calçado e, com os pés nus salpicou passos até lá. Você catou as folhas ao vento. Juntou-as, organizou-as, leu-as razoavelmente. Foi até a loja e a moça não estava mais lá. Suspiro desalentado. Saudade desconhecida. Era aquela mulher ali que você havia tocado. Era aquela mulher que foi-se e por isso lhe tocou. Os papéis voadores viraram recordação. De volta a padaria, pediu um café. Sorveu uma lembrança; tão perto e tão vaga. Dos papéis, o cheiro de um perfume cítrico. Do salto, um pedestal para exaltar os desejos casuais. Acostumar.

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