Inês.

Impecável. Esse seu horário de almoço é ótimo. É o tempo de comer, escovar os dentes e uma meia hora de descanso. Mas hoje é especial. Hoje você vai ver alguém. Hoje você vai ver alguém e dar um presente. Hoje você vai ver um alguém especial e dar um presente. Cordão de prata. Polido, brilhante e bonito, você anda cintilante pelas ruas. Entrelaçado entre os dedos, um coração afoito. Ensaiou um joguete com as mãos para presentear. Memorizou um bonito discurso. Era dela o nome cravado numa placa cinza fosca. Como você se sentia bem. Dia perfeito por demais.

***


Na esquina seguinte, um semblante sério. Uma moça compenetrada com dedos a deslizarem pelo smartphone. Uma mensagem grande. Uma pequena decepção estava à caminho. Como as coisas hoje em dia estão modernas. No caminho, você lê a mensagem diminuindo os passos.  Uma incoerência toma conta de si. Como as ideias sustentam-se tão pouco? Entre a falta de reação, um olhar para frente não mais nota uma presença. Não existe mais. Ela estava lá, mas você não a via. O cordão que não era mais presente; o “perdão” de quem talvez não sabia o que cometera. Você tentara relembrar o rosto. Olhou redes sociais e... nada. Quem sabe, uma ilusão de ótica. Seria uma obra da desilusão ou do desalento? Em passos lerdos, um atraso ao trabalho. Pagamento desfalcado. Vida que segue.

Motor.

Soube amar. Na sórdida manhã, o beijo na testa estampa o fim do sono delicado de alguém. Ela acorda, sorri e te corresponde com o mesmo estalo. Banho, café, pães, frutas e torta de maçã. Como você cozinhava bem. Tudo tão caseiro, tão farto. E sair para o trabalho era mais que esperado. Entre rumos diferentes, o encontro casual entre os mesmos carros que saíram da garagem. Era a vizinha. Formosa. Fora abrir a janela e enxergar os resquícios de uma bela noitada. De longe agora, entre o entremear dos carros, é o veículo familiar da esposa que vem à vista. Um caminho estranho. Parecia que havia algo de errado. São as coisas que fogem do cotidiano que beliscam as curiosidades inusitadas. De perto, a placa coincide. Foi estacionar ao lado para ver e crer. Uma traição descabida. Um homem enorme, cheio de mãos. Os dedos que percorriam todo o corpo. Inacreditável. Fora o seu arrancar brusco com o carro um desaviso para o caminhão cegonha. Você não deu chance de ela se explicar. Por trás de um vidro escuro, você tentara compreender os motivos. Talvez a queria demais. Por trás do muro da oficina, alguém era devassada. Quem sabe, você gostaria que ela morresse nessa culpa. Mas o ímpeto de ser imediatista fez com que somente a culpa lhe restasse. O pára-brisa é cúmplice de que a vida se esvai. Será que a sina do proibido é tornar-se trágico? De alguma forma ela vai se explicar. No outro dia, o desjejum. Do café amargo e o pão dormido, a mais sutil resposta.

Chute.

Tão ébrio. O bar era a pedida do dia. Assim como a cerveja, os aperitivos gordurosos desciam um após o outro. Minha pressão alta, meu desprezo aos demais fazem com que eu seja um autista num recinto tão lotado. E sem muita gritaria, por favor. Meu time está jogando e eu não aceito desaforo de torcida de bairro. Um gol, e eu me excito. Uma virada humilhada e eu já não acredito mais. A mais feia derrota. O cotovelo inimigo me instiga a partir para a briga. Aos socos e pontapés, os homens me separam de um moço franzino e raquítico; vestido de sangue e um brilhante distintivo, eis a minha sentença.

***

No outro dia, a vontade de morrer. Mas a morte é compromisso demais quando se é pai de família. Entre algemas, desgosto e vergonha, o jeito é absorver tudo isso. Um ano de reclusão. O bom comportamento murchou essa sentença. Talvez a reflexão de quem realmente se arrependera grandemente. Os dias para acabar cabiam nos dedos dos pés. Uma família inteira pra rever. Se reconstruir. E no meio dessa guerra, recordar os bons costumes vem à calhar. Saindo do cárcere, vi os filhos. Vergonha. Há um mais novo, que sorri e saliva abundantemente. Minha esperança estava ali. Haveria de ser avô como nunca antes. Talvez desviar o foco. De todos os prazeres, ser fraterno é, sem dúvidas, o melhor de todos.



"- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada." (Oswald de Andrade)

Amnésia


O tempo passava. Ela estava lá, parada. Esperando. Já até esqueceu-se de quem era. Sabia o nome, a importância, a fisionomia. Mas já não o identificava mais. Quando ressaltou que o intercâmbio era de apenas um ano, fez questão de dizer que nada iria mudar, que quando voltasse continuariam juntos. Mas mudou. Não era mais tão atencioso. Carinhoso. Não falava mais nada amoroso. O tom da voz mudara. Conseguia, com muito esforço, lançar um "amor" quando aparentava esquecer o nome da talvez amada. E assim tudo se amornou. O sentimento repousou, e por mais que tentassem acordá-lo, estava derrubado. Sem chance. A esperança ficava quietinha no canto dela. Não se expressava – e talvez assim, definhava. Mas resistia bravamente, não entregava os pontos. Para ela não restava alternativa. Estava presa naquele mundo caótico e não havia outros reinos para explorar. Bem no fundo, sabia que estava bem, e um dia, melhoraria.

Dózinha


 Um dia de trabalho. A rotina o fizera voltar ao lar sem esperança de outro caminho. Dois homens sentados, bebendo em frente ao portão, impediam o portão. Um aviso sonoro e um pedido formal. Sem resultados. Formalidade fora do carro, mas nada resolvido. Um punho cerrado acerta o lacrimal, e a visão turva. Somem. Em casa, cambaleante. Pronto socorro. Uma semana  afastado. Não aguenta o repouso, tendo o desacato na memória. Se fosse um desconhecido, não o perseguiria tanto. Mas era vizinho, conhecido. A vontade era escarrar a vida fora. A licença gerou maus créditos no trabalho e, por conseguinte, a demissão. Onze anos de rotina em troca de uma calcificação. Era muito e a partida se fazia como a única opção. Antes, uma briga conjugal. Uma faca certeira rumo ao peito, mas desviada a tempo antes de atingir o alvo. A lâmina aprofundou em algumas falanges e por milímetros, não afundou certeiramente. A despedida das crianças era o que mais doía. Mandaria dinheiro. As coitadinhas num pediram pra vir ao mundo. Foi à casa de amigos, traçando rotas. O leve aroma etílico, no ar - o mais sutil possível - lembrava aguardente. Ardente como a cara de choro ao se despedir do irmão. Mas foi. Decidiu que era hora de viver e não apenas ter vida.

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Texto dedicado ao sr. Amadeus. Que a força maior na qual ele crê, o guie e o ilumine em sua nova busca.

Terceiro Ato


 Ele estava lá. Parado. A espera de alguém. Quem, já não sabia mais. Há alguns minutos, recebera uma mensagem de um número desconhecido dizendo que se quisesse ser feliz, deveria ir à praia e esperar por alguém em frente a um toco de madeira no qual estava  amarrado uma blusa vermelha. Andava tão pra baixo, que foi atrás de tal tronco. Encontrou-o. A blusa também. E um espelho. Olhava as horas. Faltavam dez minutos pro horário estipulado pela mensagem. Passaram se os dez minutos - ninguém chegou. Mais dez minutos - e nada. A ansiedade dava lugar à impaciência. Esta, por sua vez, acompanhava um frio na barriga. Meia hora de atraso e nada. Pensou ser enganação. Como pude ser tão tolo e ter acreditado que era realmente pra mim? Com certeza a pessoa que viria me viu ao invés da pessoa esperada e foi embora. Inútil pensar essa hora. Sentou-se e ficou admirando o mar. Uma dádiva. Aquelas ondas que vêm e vão. Aproveitou a oportunidade, jogou os shorts e a regata e com isso, se jogou. Lavou a alma. Deixou que aquela água concentrada tirasse tudo o que havia acontecido. Tudo. Até sua atenção tinha sido tirada. Ao vestir-se, encarou o espelho. E compreendeu. Nele, a imagem de quem o faria feliz. Voltou pra casa. Com um sorriso maior do que se espera de um encontro mal sucedido.

Ensaio


Preciso falar com você. Agora. Já não aguento mais. É muito tempo pra ser desperdiçado e não sei se há como recuperá-lo. Você sabe o que eu quero dizer e sinceramente, sei sua reação. Não era pra ser assim. Você está confundindo as coisas. Estou? E foi. Cada dia aumentou. Virou essencial. Você conseguiu tirar de mim um sentimento que não sei bem o que é, mas foi o mais próximo do ápice que eu pude chegar. Era muito novo para ser considerado amor, mas bem diferente dos sentimentos enlatados que consumi - prontos, modelados e sem garantia de retorno. Você me deu o que já pude receber de melhor: seu sorriso, sua companhia em tardes inteiras e a vontade de sorrir mesmo sem ter motivos. Você foi a única a me deixar assim. Não que eu seja frio e sólido, mas você me fez ficar menos ainda. Enxergava o tudo e o nada através de você. Ensinou-me a olhar mais para mim mesmo, embora eu não parasse de olhar pra você. Já não sei mais o que eu quero. Já nem sei mais se te quero. Tantos avisos sem resposta. Conversas negadas. Uma não literalmente - nem me venha com desculpas, embora não pareça, eu te conheço. Ou não. Hoje o que sinto é uma mistura de angústia por não te ver e o medo da verdade. E esta última insiste em me mostrar a sua talvez frieza. Ainda nos veremos no mínimo um ano inteiro. Só que hoje não teremos um Oi. Não teremos uma declaração. Nem um simples cumprimento. Meus lábios se recusam a encontrar seu rosto, e quiçá, seus lábios. Apenas insistem em proferir "Adeus".

Dura


Insisto. E não sei a razão. É esse fascínio que tenho guardado dentro de mim há tempos. O que sei, é um tanto descabido para tentar entender. Um tanto inacabado. Um tanto inexperiente. Um tanto quanto nada. Rogo frases já sem sentido, na esperança de extrair algum valor moral bom. Mas nada. Há 3 longos anos, penso na mesma história. No mesmo final feliz. E nas mesmas fugas para os mesmos problemas. E cresce. Como cresce. Inunda meu coração de sentimentos que já nem sei descrever. Nunca soube, sinceramente. Já os senti, e são iguais. O mais incrível é que não eram diferentes nem sinônimos, mas sim parônimos, tendendo a leve homonimismo. O que se sucede é mais uma confusão, pois os fatos se entrelaçam. Quando não é uma, é 'uma'. E assim se vai cada qual do seu jeito. Ambas somem, e ao mais simples, claro e mínimo sinal de contato, se perdem. Em meus pensamentos.  As encontro sem ter a mínima idéia do que é certo, é errado, é real, ou ainda é. E o é por si mesmo. E assim vão, interpondo-se nas entrelinhas dos meus pensamentos, meros devaneios, mas que sabem muito bem me torturar. Ou não. Quem sabe se não sou eu que me torturo? A frieza adquirida e o medo instaurado me impedem de refletir. E nenhuma conclusão é selada. Apenas que sou louco. Por quê ou quem, já não sei. Apenas sou e por isso, fim. Ou início.

Insônia

Atiça-me como um fera indomável. Em minha insensatez, jogo-me. Um lado para o outro. Na cabeça, idéias. Sublimes. Peçonhentas. Lembranças. Peçonhentas, também. Daquelas que você leva o dia inteiro pra esquecer. Juras. Ela estava ali, em meu ombro. Ah, se eu fosse diferente. De que adiantava chorar agora se o prazer ficou no emaranhado do passado? Penso que não fui o único culpado devido ao conjunto de acontecimentos. Sim, passei o dia inteiro, a noite inteira, e porque não dizer, dias inteiros com a mesma dúvida na cabeça: Porque eu entendi errado? Porque segui o caminho na direção oposta? Agora, jogado na cama, sem direito a devaneios, entendo. Duas vidas nunca caminham juntas. Em suas trajetórias, circulares, o máximo que ocorre é um tangeciamento. E esse sim, não tem hora determinada pra acabar. Assim, ela se vai. Com ela, toda a maciez e aconchego mental que sabe proporcionar. E minha vontade de...
Caí no sono.

Mil e Nenhuma

É como ter os conjuntos do 'Todo' e do 'Vazio' juntos, ocupando o mesmo espaço sem direito a promessas e acasos. São tantas, mas não é nenhuma. A única que é, some. Como o vento empurra a chuva em uma tempestade, esta arremessa o que está óbvio. Quanto mais tenta correr, mais tropeça nas verdades. Mentiras falsas se desfragmentam nitidamente em frente as suas pupilas, mas sua mente tende a não sorvê-las, transformando-te de frágil criatura a habilidosa e esguia. Sabes o que queres, mas não consegues expressar. Sinceramente, não quer . Não consegue causar a ira, pois a aparência dócil engana. Engana bem. Muito bem. A ingenuidade aparente disfarça todo e qualquer réles devaneio que sabes tramar. Mas ela sabe. E trança toda sua vida cuidadosamente. Eis que surge uma traça, das mais imprestáveis e corrosivas. As linhas da vida se entrelaçam e não sabes como fazer para desembaraçar o nó. O nó que se forma em sua cabeça, já nem sabia que existia. E existe. Por causa disso e daquilo. E ela sabe o nome, mas teima em insistir o anônimato. Resta à tão desprezível traça esperar sentada, para ser exterminada ou adotada. Um sim ou não tanto faz. O que importa é a solução dada. E não deixe a repugnante causa desse embaraço só. Pois a machuca. E dói. Como dói.

Extremos


 E aí ele estava. Jogado. Pensamentos tolos a rodeá-lo. Precisava buscar novas direções, novos rumos. Novos lugares. Novas pessoas. Precisava descobrir. Precisava se redefinir. "O" de antes, tinha deixado de saber o que era pra pensar no que os outros eram. O quê cada um significava. O quê cada pedacinho representava. Acabara sumindo. Sumindo de sua própria consciência e assim, mal se importava consigo mesmo. Se vivia ou existia, já nem sabia. Sabia que estava ali, e só. O porquê desistira de descobrir. E assim seguiu cada vez mais se distanciando de si mesmo. Até que um dia, um ilustre desconhecido perguntou a ele quem o era. Eis que sua cabeça deu um nó. Quem eu sou? O que estou fazendo aqui? Quem são esses ao meu redor? Dizem que foi daí a diante que resolveu se isolar. Preocupou-se consigo mesmo, em sua própria forma de solidão. Narcisismo e Egocentrismo batidos no liquidificador. O altruísmo fora destruído. O que a maioria faz é equilíbrio. Quem não sabe, surta.

Laudo.

Um por um. Os pares juntos desfilam sincronizados em passos dados. Os corações entrelaçam-se numa espécie de sinfonia que eu não sei decifrar. Do outro lado da rua numa calçada larga existe um similar humanóide não pareado que pode ser eu. No fim do acostamento existe um dilúvio de sentidos que podem ser os meus. Diante da esquina está uma pessoa adorável e singular que pode ser você. De onde se admira, não se pode conter as vontades para sempre. E o contrair visceral, quem sabe, seja um começo. E de onde vem o tormento, o vigor, o calor escaldantemente quente e o andar descompassado é o imbróglio a ser decifrado quando eu lhe disser um oi. No mais tardar, debaixo do mesmo ponto de ônibus, às 17:30, numa multidão afoita, eu talvez lhe reveja numa nuvem de movimentos casuais que lhe distraiam enquanto eu tento expelir as idéias. E depois de todas as tentativas, de agir e conter-se, de sentar-se ao meio fio com os pés no asfalto, de esperar pelo outro dia na parada de ônibus, hei de partir perante a vontade de não sucumbir; e tentar com outro alguém alguma sinonímia dos adjetivos que me envolviam a você. De todo mal, me livrar; é fugir de si para enganar-se numa estratégia não compatível com a vida. Achar-se era necessário. Dentro de um coletivo moderno, um ser humano grita murmurios uníssonos incluso na multidão estática. Dentro de um cenário imaginário, uma situação lhe induz ao erro. Dentro de uma nova situação, uma catarse.

Canhoteiro


Um chute. Cruzado. Rumo ao gol - É o que me falta. Cá estou eu, de peito aberto pensando em ti. Poucos dias sem te ver. Muitos dias sem você. Cada vez que te vejo, é inexplicável. Tudo corre ao nosso redor sem sequer saber o que está acontecendo. Preferia meu tempo de criança: ingênua, pura e tola. Hoje mal sabemos nos definir. Hoje, mal sei te definir. Hoje, mal sei definir o meu sentimento em relação a você. Hoje, mal sei definir o seu sentimento em relação a mim. Hoje, tudo o que sei é que estamos parados, quando já poderíamos ter avançado. E muito. Cada vez que me dá esperança, junto essas migalhas, esses centavos de teu amor. Vou conseguindo meus reais, juntando meu salário, que é pago por eu nutrir esse sentimento que não sei. Os deposito num cofre, que sem esperança se enche. Há dias em que está meio cheio; outros, meio vazio. Nunca atinge o zero supremo ou transborda. Sempre fica ali: Quase. Um dia pretendo abordar-te e expor tudo. Um Belíssimo Gol de Canhoteiro. Procurarei transbordá-lo e assim, juntar minha fortuna.

Perfil


Um espelho. A adrenalina corre. Teu corpo treme. A pupila dilata. Você não sabe o que fazer. Se enxergar é difícil. Ninguém te vê como você o faz. Como você quer. Alguns dissimulam fácil. Algumas. Tudo tão fácil de ser julgado. Pelos outros. Por si só, é árduo. Difícil. Nada íntegro. Todos somos filhos de Um só. Só não falamos as mesmas línguas. Nosso mal é que sabemos localizar os outros, mas estamos perdidos. Soltos. Insólitos. Jogados. Egoísmo - tão alto a ponto de achar qualquer altruísmo uma vontade de aparecer. Enquanto o altruísta se mata por prazer. Desejo. Vontade de ajudar. Feche os olhos e procure tua essência e teus erros. E morra. Renasça. Feliz. Ame. Seja. Você?

Segregação


Foge. Como foge. Não dá mais pra saber. Irritante e elegante. Sabe o que quer. Eu é que não sei. Têm na cabeça ambos os pensamentos. Tudo sai do controle. A meu ver, tudo some. Você, principalmente. Alternância desigual. Você, Eu, Eu, Ninguém. E tudo se vai como se nada tivesse ocorrido. Canso. Procuro em outros rostos o seu, mas nada me vem. Nada é igual. Pureza, simplicidade e elegância. Duas vidas tão distintas duas almas tão diferentes que tentam se unir, mas nada conseguem. As almas querem, os corpos se julgam capazes, mas a mente bloqueia. Por que. Por quê? Eis uma questão pertinente. Cabe a você respondê-la. Cabe a nós resolvê-la.

Enguia (revisado)


 Com você. Sozinho. Com você, e sozinho. Em pensamento. Corporal. Você sabe me querer. Eu sei que te quero. Em tudo nos apoiamos, mas você não me afirma. Não se firma. Não me mostra. Foge. Desliza. Escapa pelos meus dedos, mas te prendo no peito. Linda, sem defeitos. A meu ver. Igual. Diferente. Curto e longo. Cultivo sem medo. Receoso. Bastava tu adular tiquinho meu. Adular-te sem retorno é intragável. Só um tiquinho e tu aí, com esse sorriso impenetrável. Teu charme me mata. Tua indecisão me mata. Nos mata. A cada dia que não me quer, te quero menos. Quero-te mais. Inconstância inconsistente. Saudades suas. Um vai e vêm que não nos mantém. E me olha. Desejo-te. Que juntos, num segundo a mais desse olhar se faz um sonho, que acordado é muito mais do que dormindo. Ao dormir, ainda te vejo. Cada vez mais perto. Lábios selados. Corpos grudados. Sem fusões precoces. Juntos. Vidrados. Será possível?

Só.

Fugi como quem corre do sol. Por um minuto parei de pensar em você, de repente. É tudo tão estranho; tão distante. E agora a saudade amarga. Invunerável. E todo sonho acusa. E então, numa sucessão de fatos, eu espero o mundo parar de girar para eu voltar atrás. Qual engodo me socorre? É como atender uma ligação gravada. Já está feito. Dois destinos incapazes de se cruzar. Novamente, eu não tenho a célebre alucinação de dois em um. Mas em mim sobra uma lastimável dor. Bursite. Ao redor dos ossos, os músculos originam-se e inserem-se de uma maneira sinérgica e antagônica. Ao redor dos sonhos, idéias se entrelaçam e findam num estalo de dois olhos abertos. De toda forma, onde eu me encaixo? A cabeça se quebra em mil partes num enigma que só você sabe a resposta. Se as rodovias dos meus destinos possuíssem retorno, eu estaria em pista dupla atrás de ti. À contramão eu me contorno. E onde eu me tenho, é tarde demais. Caio em mim numa via única e só sigo em frente. Distinto dilema. Dessa vez a vontade vai esperar.

Flores Amargas


Não se sentia nada. Não era preciso falar. Era tudo o menos que mais. Quando queria se expressar, não se deixava. Aceitava tudo com singela timidez. A voz, muitos não conheciam. O que se passava em sua cabeça, o mesmo. Ás vezes, até o nome era dessabido. Se bem, tudo era nulo. Agia sem impulsividades. Submissão. Agradava a todos, e assim, a si mesmo. Sem objetivos claros. Almoçava os elogios. Seu ego era o único nutrido. E a magreza ajudava ainda mais a não fazer notar-se. Sumia. Aparecia um bom tempo depois. Ninguém reclamava. Nem procurava. Família, todos desconheciam. Até ele. Pensa-se que surgiu no mundo do nada. Gostava de esconder em seu quarto e fazendo sabe-se lá o quê, sozinho. Morava num cantinho abandonado. Quieto. Acostumado. Ninguém sabia de seus gostos. Nem de sua paixão. Nem tentava. Nem derrota, nem sucesso incerto. Mal sabia o que era. Achava comum o sentimento. Nunca. Nada. Nem um pouquinho. De certo, adoeceu. Padeceu. Seu corpo continua na cama, onde o fato se sucedeu. É que até pra morrer, você tem que existir.

Incessante


Saudade de te procurar. Em cada esquina, lá estava eu. O que tentava mesmo era me equilibrar no meio fio da avenida. Se esguiando por entre os carros. Procurei nos cantos mais obscuros e obséquios que existiam. E nada. Desisti. Um dia, uma borboleta virá e sentará. Equilíbrio harmonioso. Daqui a tantos anos. Tudo sempre tão adiável. Nunca procure meu caro. Nunca. As coisas te acham quando querem, e as pessoas, o mesmo. Tudo é passível de uma explicação, mas não a busque. As necessárias se revelam. Você estava ali. Revelou-se a mim. Cânfora queimando. Ardência inigualável. Pulsação. Mistura melancólica. Ninguém sabe explicar, nem você mesmo. Você sabe o quanto é pra ti. Sempre soube. Desabafo mais que concreto. O feeling muda. As expressões também. Resta a maldita esperança. Maldita, sim. Não deveria de estar ali. Tudo tão cretino. Ela quer mais que tudo, e eu, não. Você não quer. Não pedi pra ela existir. Mas agradeci por você existir. Proveito mais que esperado. Digressão finita. Ao se revelar, não percebi. Fiquei inerte. A inércia me levou a imobilizar as ações. Uma palavra. Sábio seria o gesto. Inculto. Incerteza ainda garantida.

Asco.

Igual a mim. Era olhar para as pessoas e tentar descobrir-se. Um obséquio era tentar redimir-se de algo que não existia. E a vontade estava ali. Deitada. O passado era um arremedo de todos os socos e pontapés inexistentes. Os pés o levaram à esquina mais próxima. Voltar ali era assistir tudo de novo. E crer que enfim existiu. Sem ter medo. O que pode mais lhe acontecer? De todas as vidas, qual mais lhe impressionava? Todo esse dinheiro do capital perverso. Toda essa malícia que no fim não lhe serviu. E o problema foi não mais encontrar-se. Daí todo mundo sabe; é aquela ciranda que não existem dois à rodar. Eis um homem que deparou-se sem imagem ou semelhança. O reflexo te fez sair dali. Por um instante um instinto valia à pena? E crer que tudo existiu? Onde estão as provas, afinal? Por meias palavras você pos tudo a ganhar. Agora era sentar na calçada e esperar a próxima oportunidade. Um meio fio é testemunha incrédula da paciência. Onde é que você se meteu? Não disse? Que nem a mim. Igualzinho a mim. Sem preço ou carimbo, você cometeu. Sem meias palavras, você não entendeu.