Motor.

Soube amar. Na sórdida manhã, o beijo na testa estampa o fim do sono delicado de alguém. Ela acorda, sorri e te corresponde com o mesmo estalo. Banho, café, pães, frutas e torta de maçã. Como você cozinhava bem. Tudo tão caseiro, tão farto. E sair para o trabalho era mais que esperado. Entre rumos diferentes, o encontro casual entre os mesmos carros que saíram da garagem. Era a vizinha. Formosa. Fora abrir a janela e enxergar os resquícios de uma bela noitada. De longe agora, entre o entremear dos carros, é o veículo familiar da esposa que vem à vista. Um caminho estranho. Parecia que havia algo de errado. São as coisas que fogem do cotidiano que beliscam as curiosidades inusitadas. De perto, a placa coincide. Foi estacionar ao lado para ver e crer. Uma traição descabida. Um homem enorme, cheio de mãos. Os dedos que percorriam todo o corpo. Inacreditável. Fora o seu arrancar brusco com o carro um desaviso para o caminhão cegonha. Você não deu chance de ela se explicar. Por trás de um vidro escuro, você tentara compreender os motivos. Talvez a queria demais. Por trás do muro da oficina, alguém era devassada. Quem sabe, você gostaria que ela morresse nessa culpa. Mas o ímpeto de ser imediatista fez com que somente a culpa lhe restasse. O pára-brisa é cúmplice de que a vida se esvai. Será que a sina do proibido é tornar-se trágico? De alguma forma ela vai se explicar. No outro dia, o desjejum. Do café amargo e o pão dormido, a mais sutil resposta.

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