Um dia de trabalho. A
rotina o fizera voltar ao lar sem esperança de outro caminho. Dois homens
sentados, bebendo em frente ao portão, impediam o portão. Um aviso sonoro e um
pedido formal. Sem resultados. Formalidade fora do carro, mas nada resolvido.
Um punho cerrado acerta o lacrimal, e a visão turva. Somem. Em casa,
cambaleante. Pronto socorro. Uma semana afastado. Não aguenta o repouso, tendo o desacato
na memória. Se fosse um desconhecido, não o perseguiria tanto. Mas era vizinho,
conhecido. A vontade era escarrar a vida fora. A licença gerou maus créditos no
trabalho e, por conseguinte, a demissão. Onze anos de rotina em troca de uma
calcificação. Era muito e a partida se fazia como a única opção. Antes, uma
briga conjugal. Uma faca certeira rumo ao peito, mas desviada a tempo antes de
atingir o alvo. A lâmina aprofundou em algumas falanges e por milímetros, não
afundou certeiramente. A despedida das crianças era o que mais doía. Mandaria
dinheiro. As coitadinhas num pediram pra vir ao mundo. Foi à casa de amigos,
traçando rotas. O leve aroma etílico, no ar - o mais sutil possível - lembrava
aguardente. Ardente como a cara de choro ao se despedir do irmão. Mas foi.
Decidiu que era hora de viver e não apenas ter vida.
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Texto dedicado ao sr. Amadeus. Que a força maior na qual ele crê, o guie e o ilumine em sua nova busca.
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