Extremos


 E aí ele estava. Jogado. Pensamentos tolos a rodeá-lo. Precisava buscar novas direções, novos rumos. Novos lugares. Novas pessoas. Precisava descobrir. Precisava se redefinir. "O" de antes, tinha deixado de saber o que era pra pensar no que os outros eram. O quê cada um significava. O quê cada pedacinho representava. Acabara sumindo. Sumindo de sua própria consciência e assim, mal se importava consigo mesmo. Se vivia ou existia, já nem sabia. Sabia que estava ali, e só. O porquê desistira de descobrir. E assim seguiu cada vez mais se distanciando de si mesmo. Até que um dia, um ilustre desconhecido perguntou a ele quem o era. Eis que sua cabeça deu um nó. Quem eu sou? O que estou fazendo aqui? Quem são esses ao meu redor? Dizem que foi daí a diante que resolveu se isolar. Preocupou-se consigo mesmo, em sua própria forma de solidão. Narcisismo e Egocentrismo batidos no liquidificador. O altruísmo fora destruído. O que a maioria faz é equilíbrio. Quem não sabe, surta.

Laudo.

Um por um. Os pares juntos desfilam sincronizados em passos dados. Os corações entrelaçam-se numa espécie de sinfonia que eu não sei decifrar. Do outro lado da rua numa calçada larga existe um similar humanóide não pareado que pode ser eu. No fim do acostamento existe um dilúvio de sentidos que podem ser os meus. Diante da esquina está uma pessoa adorável e singular que pode ser você. De onde se admira, não se pode conter as vontades para sempre. E o contrair visceral, quem sabe, seja um começo. E de onde vem o tormento, o vigor, o calor escaldantemente quente e o andar descompassado é o imbróglio a ser decifrado quando eu lhe disser um oi. No mais tardar, debaixo do mesmo ponto de ônibus, às 17:30, numa multidão afoita, eu talvez lhe reveja numa nuvem de movimentos casuais que lhe distraiam enquanto eu tento expelir as idéias. E depois de todas as tentativas, de agir e conter-se, de sentar-se ao meio fio com os pés no asfalto, de esperar pelo outro dia na parada de ônibus, hei de partir perante a vontade de não sucumbir; e tentar com outro alguém alguma sinonímia dos adjetivos que me envolviam a você. De todo mal, me livrar; é fugir de si para enganar-se numa estratégia não compatível com a vida. Achar-se era necessário. Dentro de um coletivo moderno, um ser humano grita murmurios uníssonos incluso na multidão estática. Dentro de um cenário imaginário, uma situação lhe induz ao erro. Dentro de uma nova situação, uma catarse.

Canhoteiro


Um chute. Cruzado. Rumo ao gol - É o que me falta. Cá estou eu, de peito aberto pensando em ti. Poucos dias sem te ver. Muitos dias sem você. Cada vez que te vejo, é inexplicável. Tudo corre ao nosso redor sem sequer saber o que está acontecendo. Preferia meu tempo de criança: ingênua, pura e tola. Hoje mal sabemos nos definir. Hoje, mal sei te definir. Hoje, mal sei definir o meu sentimento em relação a você. Hoje, mal sei definir o seu sentimento em relação a mim. Hoje, tudo o que sei é que estamos parados, quando já poderíamos ter avançado. E muito. Cada vez que me dá esperança, junto essas migalhas, esses centavos de teu amor. Vou conseguindo meus reais, juntando meu salário, que é pago por eu nutrir esse sentimento que não sei. Os deposito num cofre, que sem esperança se enche. Há dias em que está meio cheio; outros, meio vazio. Nunca atinge o zero supremo ou transborda. Sempre fica ali: Quase. Um dia pretendo abordar-te e expor tudo. Um Belíssimo Gol de Canhoteiro. Procurarei transbordá-lo e assim, juntar minha fortuna.

Perfil


Um espelho. A adrenalina corre. Teu corpo treme. A pupila dilata. Você não sabe o que fazer. Se enxergar é difícil. Ninguém te vê como você o faz. Como você quer. Alguns dissimulam fácil. Algumas. Tudo tão fácil de ser julgado. Pelos outros. Por si só, é árduo. Difícil. Nada íntegro. Todos somos filhos de Um só. Só não falamos as mesmas línguas. Nosso mal é que sabemos localizar os outros, mas estamos perdidos. Soltos. Insólitos. Jogados. Egoísmo - tão alto a ponto de achar qualquer altruísmo uma vontade de aparecer. Enquanto o altruísta se mata por prazer. Desejo. Vontade de ajudar. Feche os olhos e procure tua essência e teus erros. E morra. Renasça. Feliz. Ame. Seja. Você?

Segregação


Foge. Como foge. Não dá mais pra saber. Irritante e elegante. Sabe o que quer. Eu é que não sei. Têm na cabeça ambos os pensamentos. Tudo sai do controle. A meu ver, tudo some. Você, principalmente. Alternância desigual. Você, Eu, Eu, Ninguém. E tudo se vai como se nada tivesse ocorrido. Canso. Procuro em outros rostos o seu, mas nada me vem. Nada é igual. Pureza, simplicidade e elegância. Duas vidas tão distintas duas almas tão diferentes que tentam se unir, mas nada conseguem. As almas querem, os corpos se julgam capazes, mas a mente bloqueia. Por que. Por quê? Eis uma questão pertinente. Cabe a você respondê-la. Cabe a nós resolvê-la.

Enguia (revisado)


 Com você. Sozinho. Com você, e sozinho. Em pensamento. Corporal. Você sabe me querer. Eu sei que te quero. Em tudo nos apoiamos, mas você não me afirma. Não se firma. Não me mostra. Foge. Desliza. Escapa pelos meus dedos, mas te prendo no peito. Linda, sem defeitos. A meu ver. Igual. Diferente. Curto e longo. Cultivo sem medo. Receoso. Bastava tu adular tiquinho meu. Adular-te sem retorno é intragável. Só um tiquinho e tu aí, com esse sorriso impenetrável. Teu charme me mata. Tua indecisão me mata. Nos mata. A cada dia que não me quer, te quero menos. Quero-te mais. Inconstância inconsistente. Saudades suas. Um vai e vêm que não nos mantém. E me olha. Desejo-te. Que juntos, num segundo a mais desse olhar se faz um sonho, que acordado é muito mais do que dormindo. Ao dormir, ainda te vejo. Cada vez mais perto. Lábios selados. Corpos grudados. Sem fusões precoces. Juntos. Vidrados. Será possível?

Só.

Fugi como quem corre do sol. Por um minuto parei de pensar em você, de repente. É tudo tão estranho; tão distante. E agora a saudade amarga. Invunerável. E todo sonho acusa. E então, numa sucessão de fatos, eu espero o mundo parar de girar para eu voltar atrás. Qual engodo me socorre? É como atender uma ligação gravada. Já está feito. Dois destinos incapazes de se cruzar. Novamente, eu não tenho a célebre alucinação de dois em um. Mas em mim sobra uma lastimável dor. Bursite. Ao redor dos ossos, os músculos originam-se e inserem-se de uma maneira sinérgica e antagônica. Ao redor dos sonhos, idéias se entrelaçam e findam num estalo de dois olhos abertos. De toda forma, onde eu me encaixo? A cabeça se quebra em mil partes num enigma que só você sabe a resposta. Se as rodovias dos meus destinos possuíssem retorno, eu estaria em pista dupla atrás de ti. À contramão eu me contorno. E onde eu me tenho, é tarde demais. Caio em mim numa via única e só sigo em frente. Distinto dilema. Dessa vez a vontade vai esperar.

Flores Amargas


Não se sentia nada. Não era preciso falar. Era tudo o menos que mais. Quando queria se expressar, não se deixava. Aceitava tudo com singela timidez. A voz, muitos não conheciam. O que se passava em sua cabeça, o mesmo. Ás vezes, até o nome era dessabido. Se bem, tudo era nulo. Agia sem impulsividades. Submissão. Agradava a todos, e assim, a si mesmo. Sem objetivos claros. Almoçava os elogios. Seu ego era o único nutrido. E a magreza ajudava ainda mais a não fazer notar-se. Sumia. Aparecia um bom tempo depois. Ninguém reclamava. Nem procurava. Família, todos desconheciam. Até ele. Pensa-se que surgiu no mundo do nada. Gostava de esconder em seu quarto e fazendo sabe-se lá o quê, sozinho. Morava num cantinho abandonado. Quieto. Acostumado. Ninguém sabia de seus gostos. Nem de sua paixão. Nem tentava. Nem derrota, nem sucesso incerto. Mal sabia o que era. Achava comum o sentimento. Nunca. Nada. Nem um pouquinho. De certo, adoeceu. Padeceu. Seu corpo continua na cama, onde o fato se sucedeu. É que até pra morrer, você tem que existir.

Incessante


Saudade de te procurar. Em cada esquina, lá estava eu. O que tentava mesmo era me equilibrar no meio fio da avenida. Se esguiando por entre os carros. Procurei nos cantos mais obscuros e obséquios que existiam. E nada. Desisti. Um dia, uma borboleta virá e sentará. Equilíbrio harmonioso. Daqui a tantos anos. Tudo sempre tão adiável. Nunca procure meu caro. Nunca. As coisas te acham quando querem, e as pessoas, o mesmo. Tudo é passível de uma explicação, mas não a busque. As necessárias se revelam. Você estava ali. Revelou-se a mim. Cânfora queimando. Ardência inigualável. Pulsação. Mistura melancólica. Ninguém sabe explicar, nem você mesmo. Você sabe o quanto é pra ti. Sempre soube. Desabafo mais que concreto. O feeling muda. As expressões também. Resta a maldita esperança. Maldita, sim. Não deveria de estar ali. Tudo tão cretino. Ela quer mais que tudo, e eu, não. Você não quer. Não pedi pra ela existir. Mas agradeci por você existir. Proveito mais que esperado. Digressão finita. Ao se revelar, não percebi. Fiquei inerte. A inércia me levou a imobilizar as ações. Uma palavra. Sábio seria o gesto. Inculto. Incerteza ainda garantida.

Asco.

Igual a mim. Era olhar para as pessoas e tentar descobrir-se. Um obséquio era tentar redimir-se de algo que não existia. E a vontade estava ali. Deitada. O passado era um arremedo de todos os socos e pontapés inexistentes. Os pés o levaram à esquina mais próxima. Voltar ali era assistir tudo de novo. E crer que enfim existiu. Sem ter medo. O que pode mais lhe acontecer? De todas as vidas, qual mais lhe impressionava? Todo esse dinheiro do capital perverso. Toda essa malícia que no fim não lhe serviu. E o problema foi não mais encontrar-se. Daí todo mundo sabe; é aquela ciranda que não existem dois à rodar. Eis um homem que deparou-se sem imagem ou semelhança. O reflexo te fez sair dali. Por um instante um instinto valia à pena? E crer que tudo existiu? Onde estão as provas, afinal? Por meias palavras você pos tudo a ganhar. Agora era sentar na calçada e esperar a próxima oportunidade. Um meio fio é testemunha incrédula da paciência. Onde é que você se meteu? Não disse? Que nem a mim. Igualzinho a mim. Sem preço ou carimbo, você cometeu. Sem meias palavras, você não entendeu.

Palavro


Ao mesmo tempo, era o insuperável. Não conseguia explicar ao certo o que sentia. Mas era muito mais que gostoso. Melhor ficou quando foi correspondido. A sensação de se sentir quisto, não tinha igual. Reciprocidade mais que positiva. Hiperativa. Enlaces. O pão caseiro, já tinha assado e estava pronto. Me veja uns 2 por favor. Chegou a casa. Líquido a sair do pó. Máquinas ligadas. Chimia na bandeja. Manteiga também não poderia faltar. Colocou as xícaras. Acordou-a. Surpresa. Aspiram ao primeiro gole de café, sem rotineirismo. Tão mais gostoso, embora não tivesse nenhuma diferença, nenhum ingrediente adicional. Talvez tivesse. Carinho e cuidado adicionados pouco a pouco. O casal mais que feliz estavam juntos. Realmente era um casal e não só dividiam nomes e casa. Dividiam sonhos, esperanças, desejos. Conquistas. Quem iria dizer que ambos iriam se juntar? Nem eu. Nem ela. Nem ele. Você?

Santuário


 Mar de problemas. Perdeu-se no ponto. Perdeu o ponto. Em algum momento as fórmulas não faziam mais sentido. O bar era bem mais que um refúgio. Lugar único. Mas nada de alcoolismo. Não acompanhara. Festas e foras. Festas e conquista. A última pensava ser a solução. Desde que esquecera a incógnita primária prometeu a si mesmo que esqueceria o suprafraternal. Pois bem, cá está ele, novamente pensando em amores. Ou em um sentimento que ele não sabe definir (Amor?). Mas que estava sendo bom estava. Pensou em todos os santos para lhe ajudar. Santo Antônio...Santo Antônio não, é cedo pra pensar em relacionamento seríssimo. Santo Expedito...Santo Expedito não, sabia que o amor num era uma causa impossível. São Carlos...taí, São Carlos. Sabia que era santo, mas não santo "de quê". Descobriu que era da fundação de seminários. Pois bem, já não servia mais. Cansado, desistiu de santificar, pois amor suprafraternal é coisa dos homens. Finalmente pegou um livro. Voltou-se às fórmulas. Bregamente lembrou-se de Matemática de amar. Risos abafados. Náusea conjunta.  Mesmo que disfarçado pensava muito nela. Como causa e solução. Realmente não via explicação na atração. Mas que gostava, gostava. Queria resumir tudo, mas preferia deixar expandido. Se o coração bater forte e arder... e o dele ardia, batia, ritmado, desritmado, compulsivo, tranquilo, misturado, jogado, largado, acompanhado. Cansado. ...Feliz.

Sopro.

Hora do almoço é perambular. A penumbra diurna do céu se faz ideal; especialmente quando não se quer incômodo. Parecia a vida lhe devolvendo liberdades. Quem sabe era hora de acordar. Viver um sonho. A vida tecnicista é o extermínio de um cérebro afoito. Corrosão. As vezes é mais fácil escapar. Aonde estaria o consumo inerente? Você não se lembra. As compulsões ainda são as mesmas. Parecia a vida lhe pregando peças. Era esvaziar a carteira. Queria um elevador. Uma cortina de água. Um pupilo para contar as enormes peripécias da humanidade. Mas o que cabia dentro de si? Toda a sapiência era eruditamente mascarada. Esse dia é perfeito. Você torna a andar com uma vontade descabida. E pensar que sempre foi assim. Instável. Parecia a vida lhe dizendo. Os pingos nos jotas são um critério à sua maneira. Mas o sinal soa. O corpo treme. A rotina prossegue. Alguém manda avisar-lhe que é apenas mais um dia. Os coletivos eram os braços e pernas numa só finalidade. Acha que a vida já lhe fez tudo? Engano. Quiçá a hora de pensar no que sente.

Pista.

Vinha de baixo. Era como se penasse todos os dias. Quase sempre um tropeço numa decepção. Foi olhar pro céu e ver que as nuvens voltaram. Um guarda-chuva era meio que uma meia solução. Um dia vivido era meio que um semi desafio. Desafio desafinado. Você estava velho demais. Talvez já fosse hora de entender o limiar da gentileza e da canalhice. Onde as coisas misturaram-se. Cabelos caindo. A pele já não é mais a mesma. Mas aí está você. Perto das calçadas. Andando sobre os meios fios. Teimando com as pessoas. Anotando as placas dos transeuntes carros. Um rumo lhe entristece. Talvez já fosse hora de entender que na vida há limites para o cansaço. Dormir na praça não vale mais. Um lar lhe espera. E quando o sol se põe é hora de bocejar. Não via graça na noite. Queria fechar os olhos e torcer pela manhã seguinte. Mas era melhor chegar logo em casa. Já demorou muito tempo com um talonário nas mãos. Talvez já fosse hora de comida quente e preguiça. Além do que não haviam idéias. Afinal, o contato era mínimo. O sono era grande. E um amanhã. Bom, um amanhã nunca será demais.

Antigamente.

Quase tive a chance de acertar. Era quase um estranho. Quase acertando. Por pouco quase saiu as palavras certas. Em cena um homem que quase sucedeu. Devia ser protegido por algum acaso; quase um destino. Por isso quase todos precisavam saber. Era sair dali e quase separar-se de uma gentalha. Pois no fundo eu sabia: pra que lado vai. Quase decido. Já me davam por quase vencido. Em instantes, um novo ato. Quase surpresa. O ar seco; o rosto úmido, quase sujo. Segurei o juízo e olhei reto na vida. Uma saudade danada. É como eles disseram. Um susto grande. Um quase incesto no Estado. As promessas não eram mais dívidas. Todas quase caíram no chão, quando viram que quase houve um fim. Não há neste mundo o que me ponha pra hesitar. Quase blefe; como pode? Tudo quase se explicar. E sair, daqui. Uníssono e quase sem voz. O que espreita, espera, e quase surta. O alento está fora, quase ausente. Mais um dia e sim, num instante. Eu, quase lá.

Feira sem preço


Ah, o término. Enfim liberdade. Ainda estava exposto o sentimento mal acabado. Aliás, mal começado. Tudo correra tão rápido que não era espantoso o fim. Ao telefonema, noite planejada. A dúzia de amigas, conforto. A música seria uma piscina, com retorno só para ar. Banhou-se e vestiu-se. Pôs uma saia que a fazia se sentir estranha - não a usava desde o começo do namoro - o último, no caso. O Ex não gostava, achava muito curta. É essa mesma. O maço de cigarros jogou no lixo. Vestígio da imundice anterior. Tudo tem seu lado positivo, limpeza. Open bar, comida se faz mais que necessária. O pedaço do bolo tragado em poucas mordidas. Carona na porta. Carro apertado, coração animado. A fila não era obstáculo e sim alegria - troca de olhar sem censura. Talvez houvesse uma expansão. A pista de dança, um mar de éter, embriaguez e mistura. Jogou-se e não queria mais sair. Uma aproximada e uma negação. Outra aproximação e nada feito. Ela faria as regras. Olhou-o de longe. Quis ir, mas receou - o ultimo em que chegara foi o responsável por uma de suas maiores tristezas. Pé atrás, mãos nas costas, passadas empurradas adiante. Oi. A troca de olhar estava mais que implícita. Por sorte havia pintado a boca de vinho. Escreveu-a na dele. Sem palavras, apenas desejo. Contato. Um bocado de sentimento, talvez. Será ele que vai me oferecer o buquê um dia? Deitada na cama, seu corpo repousava e a mente relutava a mudança.

Aquecido.

É muito fácil dormir. Resolver não pensar em nada. Estar entregue; solícito ao inconsciente. Mas e todos os seus projetos? Não vai mais sentar para escrever? De onde vem a calma para suportar-se. Você não sabe. Talvez o medo de não ser mais o primeiro o consolasse. Vice posição seria um suicídio. Abriu uma pasta de arquivo e derramou-se em todas as suas palavras. Organizou-as ordenadas numa coesiva hipótese de um brilho único. Mas não era só fechar a pasta. A partir de agora, todas as idéias resultantes são grandes apelos. Pior. Fez-lhe ver através das portas. Revelando a seqüência inteira. Partir dali talvez não seria um erro. O revés seria fechar os olhos. Eis então o homem que não mais pisca. Os punhos comprometidos, as pernas inquietas. Eram tantas portas, tantos caminhos. Todos os objetivos refletidos num espelho que atravessa projeções. Era acabar ou acabar-se. Pregueado. Não é mais você; apenas uma força de vontade. Olhou o sol a nascer e quis desejar um boa noite. Olhou para si mesmo e concluiu-se, de qualquer forma. Sem fome, com sede. O café é adoçado para agüentar-se. A vigília não fora a primeira. O copo de café, inconteste. Os olhos entreabertos sonham ainda acordados. Era hora de ser o primeiro. Sem acordos, cessou. Era mais fácil trocar noite por dia. Era mais fácil que abandonar tudo e viver em paz. Capaz que negar-se seria o próximo passo. Sujeito inválido. Era voar dali para impressionar. Sem conserto.

Cobradora.

Descompassado. Não entendera porque os prédios eram tão inclinados. O que te tornara tão inseguro? Um olhar é desviado. Queria que as edificações caíssem; colidissem de alguma forma. Um coletivo o salvaria? A avenida é o extermínio do homem-causa dos grandes desabamentos. Saiba que você não é o único num engodo iludido. O ônibus era um escape e um atraso, ao mesmo tempo. De um lugar para o outro. Rumo certo. Projétil decidido. Sentiu falta de si. Você não era tão emocional. Um almoço é bala; mas não estava na hora. Era o momento de parar. De decidir se ali ia ficar. A felicidade era um prato que se comera frio embora o almoço hoje sejam apenas negócios. Talvez fosse melhor andar por ali, ou então dependurar-se nos seguradores do coletivo. Mas uma refeição importante não vai acontecer. Não assim tão colérico. Estômago doendo. Você olha pra baixo, vê um sinal e não se entende. Os transeuntes esbarram-se. Pra quê trocar o sim pelo não? Despeça dos argumentos. O terminal é como comida radioativa. Os sentimentos, no fim, duram mais que uma meia-vida. A avenida diz "termine".

Bochechas


Em breve mais uma sessão de pressão começava. Tranquilo, ao contrário da multidão que o cercava. Nenhuma platéia. Nenhum protagonista. Apenas coadjuvantes. Ali, ele era mais um. Apenas um. O chamado surgiu. Ela surgiu. Sentiu-se especial. Não "um". Era "o". Cavalheirismo. Entronou os braços, mas foi negado pela vergonha. Gentil, consentiu. Achou que o passeio teria alguma serventia. Teve. Além da esperada. Nada de serviçal e sim Companhia. Sensação nova. Tão nova que não conseguiu agir diferente e o ímpeto de ajudar o fez levar as malas. Carregou-as. Despediu-se. Rumou até a própria bagagem que além do peso físico o era mental: esqueci algo vital? Pensamentos o rodeavam. Ao retornar os pensamentos se esvoaçaram junto à multidão que agora era ausente. Para sua surpresa, ela estava lá - aguardando-o. Como nunca ocorrera antes. Sorte? Mudança? Sentimento? Provocação - sua grande consciência concluíra.

Gelos


Estandarte aberto. Peito estufado. Noite escarrada. Tudo se misturava em embriaguez. Os copos iam e vinham, mas a seriedade ficava. Pensou em se levantar, mas já era muito esforço. Comodidade. Os garçons o serviam, mas o que ele queria mesmo era uma companhia. Isso o dinheiro não podia dar. Ou podia. Não do jeito que queria. Pagar por companhia é a plena ausência de interesse. Talvez tenhamos que fugir sem você. E fugiram. Abandonaram. Todos seus pensamentos eram voltados a isso. Vida? De que adiantava se não poderia compartilhar nada com ninguém? Um vírus letal o atingiu: o abismo. Entrou em crise e tudo sumiu. Agora que reergueu,  os outros vieram. Na queda, ninguém o apoiou; na ascensão todos tentaram sugá-lo. Aí descobriu a sua amiga: a solidão. Desmotivou-se de tudo. O que era uma fuga virou o caminho. Arrombar de portas sem sentir dor. Todas trancadas e abertas. Carvalho podre. Desceu mais um copo a mesa. O banho o ajudaria. Na água fria se encontrou. Água benta sem benção. Deitou-se. Não havia mundo a seu redor. Não girava nada. Seu sonho era negro. A visão turva. Embaraçou-se e repousou. Acordou?