Antigamente.
Quase tive a chance de acertar. Era quase um estranho. Quase acertando. Por pouco quase saiu as palavras certas. Em cena um homem que quase sucedeu. Devia ser protegido por algum acaso; quase um destino. Por isso quase todos precisavam saber. Era sair dali e quase separar-se de uma gentalha. Pois no fundo eu sabia: pra que lado vai. Quase decido. Já me davam por quase vencido. Em instantes, um novo ato. Quase surpresa. O ar seco; o rosto úmido, quase sujo. Segurei o juízo e olhei reto na vida. Uma saudade danada. É como eles disseram. Um susto grande. Um quase incesto no Estado. As promessas não eram mais dívidas. Todas quase caíram no chão, quando viram que quase houve um fim. Não há neste mundo o que me ponha pra hesitar. Quase blefe; como pode? Tudo quase se explicar. E sair, daqui. Uníssono e quase sem voz. O que espreita, espera, e quase surta. O alento está fora, quase ausente. Mais um dia e sim, num instante. Eu, quase lá.
Feira sem preço
Ah, o término. Enfim liberdade. Ainda estava exposto o
sentimento mal acabado. Aliás, mal começado. Tudo correra tão rápido que não
era espantoso o fim. Ao telefonema, noite planejada. A dúzia de amigas,
conforto. A música seria uma piscina, com retorno só para ar. Banhou-se e
vestiu-se. Pôs uma saia que a fazia se sentir estranha - não a usava desde o
começo do namoro - o último, no caso. O Ex não gostava, achava muito curta. É essa mesma. O maço de cigarros jogou
no lixo. Vestígio da imundice anterior. Tudo tem seu lado positivo, limpeza.
Open bar, comida se faz mais que necessária. O pedaço do bolo tragado em poucas
mordidas. Carona na porta. Carro apertado, coração animado. A fila não era obstáculo
e sim alegria - troca de olhar sem censura. Talvez houvesse uma expansão. A
pista de dança, um mar de éter, embriaguez e mistura. Jogou-se e não queria
mais sair. Uma aproximada e uma negação. Outra aproximação e nada feito. Ela
faria as regras. Olhou-o de longe. Quis ir, mas receou - o ultimo em que
chegara foi o responsável por uma de suas maiores tristezas. Pé atrás, mãos nas
costas, passadas empurradas adiante. Oi.
A troca de olhar estava mais que implícita. Por sorte havia pintado a boca de
vinho. Escreveu-a na dele. Sem palavras, apenas desejo. Contato. Um bocado de
sentimento, talvez. Será ele que vai me
oferecer o buquê um dia? Deitada na cama, seu corpo repousava e a mente
relutava a mudança.
Aquecido.
É muito fácil dormir. Resolver não pensar em nada. Estar entregue; solícito ao inconsciente. Mas e todos os seus projetos? Não vai mais sentar para escrever? De onde vem a calma para suportar-se. Você não sabe. Talvez o medo de não ser mais o primeiro o consolasse. Vice posição seria um suicídio. Abriu uma pasta de arquivo e derramou-se em todas as suas palavras. Organizou-as ordenadas numa coesiva hipótese de um brilho único. Mas não era só fechar a pasta. A partir de agora, todas as idéias resultantes são grandes apelos. Pior. Fez-lhe ver através das portas. Revelando a seqüência inteira. Partir dali talvez não seria um erro. O revés seria fechar os olhos. Eis então o homem que não mais pisca. Os punhos comprometidos, as pernas inquietas. Eram tantas portas, tantos caminhos. Todos os objetivos refletidos num espelho que atravessa projeções. Era acabar ou acabar-se. Pregueado. Não é mais você; apenas uma força de vontade. Olhou o sol a nascer e quis desejar um boa noite. Olhou para si mesmo e concluiu-se, de qualquer forma. Sem fome, com sede. O café é adoçado para agüentar-se. A vigília não fora a primeira. O copo de café, inconteste. Os olhos entreabertos sonham ainda acordados. Era hora de ser o primeiro. Sem acordos, cessou. Era mais fácil trocar noite por dia. Era mais fácil que abandonar tudo e viver em paz. Capaz que negar-se seria o próximo passo. Sujeito inválido. Era voar dali para impressionar. Sem conserto.
Cobradora.
Descompassado. Não entendera porque os prédios eram tão inclinados. O que te tornara tão inseguro? Um olhar é desviado. Queria que as edificações caíssem; colidissem de alguma forma. Um coletivo o salvaria? A avenida é o extermínio do homem-causa dos grandes desabamentos. Saiba que você não é o único num engodo iludido. O ônibus era um escape e um atraso, ao mesmo tempo. De um lugar para o outro. Rumo certo. Projétil decidido. Sentiu falta de si. Você não era tão emocional. Um almoço é bala; mas não estava na hora. Era o momento de parar. De decidir se ali ia ficar. A felicidade era um prato que se comera frio embora o almoço hoje sejam apenas negócios. Talvez fosse melhor andar por ali, ou então dependurar-se nos seguradores do coletivo. Mas uma refeição importante não vai acontecer. Não assim tão colérico. Estômago doendo. Você olha pra baixo, vê um sinal e não se entende. Os transeuntes esbarram-se. Pra quê trocar o sim pelo não? Despeça dos argumentos. O terminal é como comida radioativa. Os sentimentos, no fim, duram mais que uma meia-vida. A avenida diz "termine".
Bochechas
Em breve mais uma sessão de pressão começava. Tranquilo, ao
contrário da multidão que o cercava. Nenhuma platéia. Nenhum protagonista.
Apenas coadjuvantes. Ali, ele era mais um. Apenas um. O chamado surgiu. Ela
surgiu. Sentiu-se especial. Não "um". Era "o".
Cavalheirismo. Entronou os braços, mas foi negado pela vergonha. Gentil, consentiu. Achou que o
passeio teria alguma serventia. Teve. Além da esperada. Nada de serviçal e sim
Companhia. Sensação nova. Tão nova que não conseguiu agir diferente e o ímpeto
de ajudar o fez levar as malas. Carregou-as. Despediu-se. Rumou até a própria
bagagem que além do peso físico o era mental: esqueci algo vital? Pensamentos o
rodeavam. Ao retornar os pensamentos se esvoaçaram junto à multidão que agora
era ausente. Para sua surpresa, ela estava lá - aguardando-o. Como nunca
ocorrera antes. Sorte? Mudança? Sentimento? Provocação - sua grande consciência
concluíra.
Gelos
Estandarte aberto. Peito estufado. Noite escarrada. Tudo se
misturava em embriaguez. Os copos iam e vinham, mas a seriedade ficava. Pensou
em se levantar, mas já era muito esforço. Comodidade. Os garçons o serviam, mas
o que ele queria mesmo era uma companhia. Isso o dinheiro não podia dar. Ou
podia. Não do jeito que queria. Pagar por companhia é a plena ausência de
interesse. Talvez tenhamos que fugir sem você. E fugiram. Abandonaram. Todos
seus pensamentos eram voltados a isso. Vida? De que adiantava se não poderia
compartilhar nada com ninguém? Um vírus letal o atingiu: o abismo. Entrou em
crise e tudo sumiu. Agora que reergueu, os outros vieram. Na queda, ninguém o apoiou;
na ascensão todos tentaram sugá-lo. Aí descobriu a sua amiga: a solidão.
Desmotivou-se de tudo. O que era uma fuga virou o caminho. Arrombar de portas
sem sentir dor. Todas trancadas e abertas. Carvalho podre. Desceu mais um copo
a mesa. O banho o ajudaria. Na água fria se encontrou. Água benta sem benção.
Deitou-se. Não havia mundo a seu redor. Não girava nada. Seu sonho era negro. A
visão turva. Embaraçou-se e repousou. Acordou?
Exacerbado
Título? Preferiu deixar para depois. No papel a mistura de
letras e palavras. Na cabeça, o mix de idéias. A confusão se tecia em fios de
seda. A tinta azul os regava corando os pensamentos. Os riscos e rabiscos, o
tom da censura. O copo de uísque, a embriaguez e a loucura. Um bon vivant? Uma tarefa? Luxo do
trabalho. Sem atenção nem dedicação. Não discuta. Ah como ele queria. Pois bem,
não pode mais. Perdeu a chance. Melhor, largou-a. Pôs tudo de lado. Círculos. O
andar o estonteava e o desfocava. Náuseas. Provocação. Sentimento. Ausência de.
Queda. Urros. Dor. Levantou-se num ato único. Pegou caneta e o papel. Jogou
longe. Resgatou a folha. Amassou-a. a tarefa ficou em branco, assim como suas
lembranças. Seu nome. Cama. Sol. Sapato. Cigarro. Carro. Trabalho. Sem
pudores... Reclamação. Muitas idéias. Pouca coerência. Cigarro. Almoço, já não
o tinha há décadas. Ficou com o pacote de bolacha água e sal. Estava tão
nutrido. Folhas ao alto. Carro. Cigarro. Cerveja. Casa. Chuveiro. Cama. Decidiu
mudar. Amanhã recomeçaria sua vida. Colocaria os devidos pingos nos is. Pela
décima vez. Mas iria mudar. Mundo Moderno?
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