Chute.

Tão ébrio. O bar era a pedida do dia. Assim como a cerveja, os aperitivos gordurosos desciam um após o outro. Minha pressão alta, meu desprezo aos demais fazem com que eu seja um autista num recinto tão lotado. E sem muita gritaria, por favor. Meu time está jogando e eu não aceito desaforo de torcida de bairro. Um gol, e eu me excito. Uma virada humilhada e eu já não acredito mais. A mais feia derrota. O cotovelo inimigo me instiga a partir para a briga. Aos socos e pontapés, os homens me separam de um moço franzino e raquítico; vestido de sangue e um brilhante distintivo, eis a minha sentença.

***

No outro dia, a vontade de morrer. Mas a morte é compromisso demais quando se é pai de família. Entre algemas, desgosto e vergonha, o jeito é absorver tudo isso. Um ano de reclusão. O bom comportamento murchou essa sentença. Talvez a reflexão de quem realmente se arrependera grandemente. Os dias para acabar cabiam nos dedos dos pés. Uma família inteira pra rever. Se reconstruir. E no meio dessa guerra, recordar os bons costumes vem à calhar. Saindo do cárcere, vi os filhos. Vergonha. Há um mais novo, que sorri e saliva abundantemente. Minha esperança estava ali. Haveria de ser avô como nunca antes. Talvez desviar o foco. De todos os prazeres, ser fraterno é, sem dúvidas, o melhor de todos.



"- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada." (Oswald de Andrade)

Amnésia


O tempo passava. Ela estava lá, parada. Esperando. Já até esqueceu-se de quem era. Sabia o nome, a importância, a fisionomia. Mas já não o identificava mais. Quando ressaltou que o intercâmbio era de apenas um ano, fez questão de dizer que nada iria mudar, que quando voltasse continuariam juntos. Mas mudou. Não era mais tão atencioso. Carinhoso. Não falava mais nada amoroso. O tom da voz mudara. Conseguia, com muito esforço, lançar um "amor" quando aparentava esquecer o nome da talvez amada. E assim tudo se amornou. O sentimento repousou, e por mais que tentassem acordá-lo, estava derrubado. Sem chance. A esperança ficava quietinha no canto dela. Não se expressava – e talvez assim, definhava. Mas resistia bravamente, não entregava os pontos. Para ela não restava alternativa. Estava presa naquele mundo caótico e não havia outros reinos para explorar. Bem no fundo, sabia que estava bem, e um dia, melhoraria.

Dózinha


 Um dia de trabalho. A rotina o fizera voltar ao lar sem esperança de outro caminho. Dois homens sentados, bebendo em frente ao portão, impediam o portão. Um aviso sonoro e um pedido formal. Sem resultados. Formalidade fora do carro, mas nada resolvido. Um punho cerrado acerta o lacrimal, e a visão turva. Somem. Em casa, cambaleante. Pronto socorro. Uma semana  afastado. Não aguenta o repouso, tendo o desacato na memória. Se fosse um desconhecido, não o perseguiria tanto. Mas era vizinho, conhecido. A vontade era escarrar a vida fora. A licença gerou maus créditos no trabalho e, por conseguinte, a demissão. Onze anos de rotina em troca de uma calcificação. Era muito e a partida se fazia como a única opção. Antes, uma briga conjugal. Uma faca certeira rumo ao peito, mas desviada a tempo antes de atingir o alvo. A lâmina aprofundou em algumas falanges e por milímetros, não afundou certeiramente. A despedida das crianças era o que mais doía. Mandaria dinheiro. As coitadinhas num pediram pra vir ao mundo. Foi à casa de amigos, traçando rotas. O leve aroma etílico, no ar - o mais sutil possível - lembrava aguardente. Ardente como a cara de choro ao se despedir do irmão. Mas foi. Decidiu que era hora de viver e não apenas ter vida.

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Texto dedicado ao sr. Amadeus. Que a força maior na qual ele crê, o guie e o ilumine em sua nova busca.

Terceiro Ato


 Ele estava lá. Parado. A espera de alguém. Quem, já não sabia mais. Há alguns minutos, recebera uma mensagem de um número desconhecido dizendo que se quisesse ser feliz, deveria ir à praia e esperar por alguém em frente a um toco de madeira no qual estava  amarrado uma blusa vermelha. Andava tão pra baixo, que foi atrás de tal tronco. Encontrou-o. A blusa também. E um espelho. Olhava as horas. Faltavam dez minutos pro horário estipulado pela mensagem. Passaram se os dez minutos - ninguém chegou. Mais dez minutos - e nada. A ansiedade dava lugar à impaciência. Esta, por sua vez, acompanhava um frio na barriga. Meia hora de atraso e nada. Pensou ser enganação. Como pude ser tão tolo e ter acreditado que era realmente pra mim? Com certeza a pessoa que viria me viu ao invés da pessoa esperada e foi embora. Inútil pensar essa hora. Sentou-se e ficou admirando o mar. Uma dádiva. Aquelas ondas que vêm e vão. Aproveitou a oportunidade, jogou os shorts e a regata e com isso, se jogou. Lavou a alma. Deixou que aquela água concentrada tirasse tudo o que havia acontecido. Tudo. Até sua atenção tinha sido tirada. Ao vestir-se, encarou o espelho. E compreendeu. Nele, a imagem de quem o faria feliz. Voltou pra casa. Com um sorriso maior do que se espera de um encontro mal sucedido.

Ensaio


Preciso falar com você. Agora. Já não aguento mais. É muito tempo pra ser desperdiçado e não sei se há como recuperá-lo. Você sabe o que eu quero dizer e sinceramente, sei sua reação. Não era pra ser assim. Você está confundindo as coisas. Estou? E foi. Cada dia aumentou. Virou essencial. Você conseguiu tirar de mim um sentimento que não sei bem o que é, mas foi o mais próximo do ápice que eu pude chegar. Era muito novo para ser considerado amor, mas bem diferente dos sentimentos enlatados que consumi - prontos, modelados e sem garantia de retorno. Você me deu o que já pude receber de melhor: seu sorriso, sua companhia em tardes inteiras e a vontade de sorrir mesmo sem ter motivos. Você foi a única a me deixar assim. Não que eu seja frio e sólido, mas você me fez ficar menos ainda. Enxergava o tudo e o nada através de você. Ensinou-me a olhar mais para mim mesmo, embora eu não parasse de olhar pra você. Já não sei mais o que eu quero. Já nem sei mais se te quero. Tantos avisos sem resposta. Conversas negadas. Uma não literalmente - nem me venha com desculpas, embora não pareça, eu te conheço. Ou não. Hoje o que sinto é uma mistura de angústia por não te ver e o medo da verdade. E esta última insiste em me mostrar a sua talvez frieza. Ainda nos veremos no mínimo um ano inteiro. Só que hoje não teremos um Oi. Não teremos uma declaração. Nem um simples cumprimento. Meus lábios se recusam a encontrar seu rosto, e quiçá, seus lábios. Apenas insistem em proferir "Adeus".

Dura


Insisto. E não sei a razão. É esse fascínio que tenho guardado dentro de mim há tempos. O que sei, é um tanto descabido para tentar entender. Um tanto inacabado. Um tanto inexperiente. Um tanto quanto nada. Rogo frases já sem sentido, na esperança de extrair algum valor moral bom. Mas nada. Há 3 longos anos, penso na mesma história. No mesmo final feliz. E nas mesmas fugas para os mesmos problemas. E cresce. Como cresce. Inunda meu coração de sentimentos que já nem sei descrever. Nunca soube, sinceramente. Já os senti, e são iguais. O mais incrível é que não eram diferentes nem sinônimos, mas sim parônimos, tendendo a leve homonimismo. O que se sucede é mais uma confusão, pois os fatos se entrelaçam. Quando não é uma, é 'uma'. E assim se vai cada qual do seu jeito. Ambas somem, e ao mais simples, claro e mínimo sinal de contato, se perdem. Em meus pensamentos.  As encontro sem ter a mínima idéia do que é certo, é errado, é real, ou ainda é. E o é por si mesmo. E assim vão, interpondo-se nas entrelinhas dos meus pensamentos, meros devaneios, mas que sabem muito bem me torturar. Ou não. Quem sabe se não sou eu que me torturo? A frieza adquirida e o medo instaurado me impedem de refletir. E nenhuma conclusão é selada. Apenas que sou louco. Por quê ou quem, já não sei. Apenas sou e por isso, fim. Ou início.

Insônia

Atiça-me como um fera indomável. Em minha insensatez, jogo-me. Um lado para o outro. Na cabeça, idéias. Sublimes. Peçonhentas. Lembranças. Peçonhentas, também. Daquelas que você leva o dia inteiro pra esquecer. Juras. Ela estava ali, em meu ombro. Ah, se eu fosse diferente. De que adiantava chorar agora se o prazer ficou no emaranhado do passado? Penso que não fui o único culpado devido ao conjunto de acontecimentos. Sim, passei o dia inteiro, a noite inteira, e porque não dizer, dias inteiros com a mesma dúvida na cabeça: Porque eu entendi errado? Porque segui o caminho na direção oposta? Agora, jogado na cama, sem direito a devaneios, entendo. Duas vidas nunca caminham juntas. Em suas trajetórias, circulares, o máximo que ocorre é um tangeciamento. E esse sim, não tem hora determinada pra acabar. Assim, ela se vai. Com ela, toda a maciez e aconchego mental que sabe proporcionar. E minha vontade de...
Caí no sono.