Só.
Fugi como quem corre do sol. Por um minuto parei de pensar em você, de repente. É tudo tão estranho; tão distante. E agora a saudade amarga. Invunerável. E todo sonho acusa. E então, numa sucessão de fatos, eu espero o mundo parar de girar para eu voltar atrás. Qual engodo me socorre? É como atender uma ligação gravada. Já está feito. Dois destinos incapazes de se cruzar. Novamente, eu não tenho a célebre alucinação de dois em um. Mas em mim sobra uma lastimável dor. Bursite. Ao redor dos ossos, os músculos originam-se e inserem-se de uma maneira sinérgica e antagônica. Ao redor dos sonhos, idéias se entrelaçam e findam num estalo de dois olhos abertos. De toda forma, onde eu me encaixo? A cabeça se quebra em mil partes num enigma que só você sabe a resposta. Se as rodovias dos meus destinos possuíssem retorno, eu estaria em pista dupla atrás de ti. À contramão eu me contorno. E onde eu me tenho, é tarde demais. Caio em mim numa via única e só sigo em frente. Distinto dilema. Dessa vez a vontade vai esperar.
Flores Amargas
Não se sentia nada. Não era preciso falar. Era tudo o menos
que mais. Quando queria se expressar, não se deixava. Aceitava tudo com singela
timidez. A voz, muitos não conheciam. O que se passava em sua cabeça, o mesmo.
Ás vezes, até o nome era dessabido. Se bem, tudo era nulo. Agia sem
impulsividades. Submissão. Agradava a todos, e assim, a si mesmo. Sem objetivos
claros. Almoçava os elogios. Seu ego era o único nutrido. E a magreza ajudava
ainda mais a não fazer notar-se. Sumia. Aparecia um bom tempo depois. Ninguém
reclamava. Nem procurava. Família, todos desconheciam. Até ele. Pensa-se que
surgiu no mundo do nada. Gostava de esconder em seu quarto e fazendo sabe-se lá
o quê, sozinho. Morava num cantinho abandonado. Quieto. Acostumado. Ninguém
sabia de seus gostos. Nem de sua paixão. Nem tentava. Nem derrota, nem sucesso
incerto. Mal sabia o que era. Achava comum o sentimento. Nunca. Nada. Nem um
pouquinho. De certo, adoeceu. Padeceu. Seu corpo continua na cama, onde o fato
se sucedeu. É que até pra morrer, você
tem que existir.
Incessante
Saudade de te procurar. Em cada esquina, lá estava eu. O que
tentava mesmo era me equilibrar no meio fio da avenida. Se esguiando por entre
os carros. Procurei nos cantos mais obscuros e obséquios que existiam. E nada.
Desisti. Um dia, uma borboleta virá e sentará. Equilíbrio harmonioso. Daqui a tantos anos. Tudo sempre tão adiável.
Nunca procure meu caro. Nunca. As
coisas te acham quando querem, e as pessoas, o mesmo. Tudo é passível de uma
explicação, mas não a busque. As necessárias se revelam. Você estava ali. Revelou-se
a mim. Cânfora queimando. Ardência inigualável. Pulsação. Mistura melancólica.
Ninguém sabe explicar, nem você mesmo. Você sabe o quanto é pra ti. Sempre soube.
Desabafo mais que concreto. O feeling muda. As expressões também. Resta a
maldita esperança. Maldita, sim. Não deveria de estar ali. Tudo tão cretino.
Ela quer mais que tudo, e eu, não. Você não quer. Não pedi pra ela existir. Mas
agradeci por você existir. Proveito mais que esperado. Digressão finita. Ao se
revelar, não percebi. Fiquei inerte. A inércia me levou a imobilizar as ações.
Uma palavra. Sábio seria o gesto. Inculto. Incerteza ainda garantida.
Asco.
Igual a mim. Era olhar para as pessoas e tentar descobrir-se. Um obséquio era tentar redimir-se de algo que não existia. E a vontade estava ali. Deitada. O passado era um arremedo de todos os socos e pontapés inexistentes. Os pés o levaram à esquina mais próxima. Voltar ali era assistir tudo de novo. E crer que enfim existiu. Sem ter medo. O que pode mais lhe acontecer? De todas as vidas, qual mais lhe impressionava? Todo esse dinheiro do capital perverso. Toda essa malícia que no fim não lhe serviu. E o problema foi não mais encontrar-se. Daí todo mundo sabe; é aquela ciranda que não existem dois à rodar. Eis um homem que deparou-se sem imagem ou semelhança. O reflexo te fez sair dali. Por um instante um instinto valia à pena? E crer que tudo existiu? Onde estão as provas, afinal? Por meias palavras você pos tudo a ganhar. Agora era sentar na calçada e esperar a próxima oportunidade. Um meio fio é testemunha incrédula da paciência. Onde é que você se meteu? Não disse? Que nem a mim. Igualzinho a mim. Sem preço ou carimbo, você cometeu. Sem meias palavras, você não entendeu.
Palavro
Ao mesmo tempo, era o insuperável. Não conseguia explicar ao
certo o que sentia. Mas era muito mais que gostoso. Melhor ficou quando foi
correspondido. A sensação de se sentir quisto, não tinha igual. Reciprocidade
mais que positiva. Hiperativa. Enlaces. O pão caseiro, já tinha assado e estava
pronto. Me veja uns 2 por favor.
Chegou a casa. Líquido a sair do pó. Máquinas ligadas. Chimia na bandeja.
Manteiga também não poderia faltar. Colocou as xícaras. Acordou-a. Surpresa. Aspiram ao primeiro gole de
café, sem rotineirismo. Tão mais
gostoso, embora não tivesse nenhuma diferença, nenhum ingrediente adicional.
Talvez tivesse. Carinho e cuidado adicionados pouco a pouco. O casal mais que
feliz estavam juntos. Realmente era um
casal e não só dividiam nomes e casa. Dividiam sonhos, esperanças, desejos.
Conquistas. Quem iria dizer que ambos iriam se juntar? Nem eu. Nem ela. Nem
ele. Você?
Santuário
Mar de problemas.
Perdeu-se no ponto. Perdeu o ponto. Em algum momento as fórmulas não faziam
mais sentido. O bar era bem mais que um refúgio. Lugar único. Mas nada de alcoolismo.
Não acompanhara. Festas e foras. Festas e conquista. A última pensava ser a solução.
Desde que esquecera a incógnita primária prometeu a si mesmo que esqueceria o
suprafraternal. Pois bem, cá está ele, novamente pensando em amores. Ou em um
sentimento que ele não sabe definir (Amor?). Mas que estava sendo bom estava.
Pensou em todos os santos para lhe ajudar. Santo Antônio...Santo Antônio não, é
cedo pra pensar em relacionamento seríssimo. Santo Expedito...Santo Expedito
não, sabia que o amor num era uma causa impossível. São Carlos...taí, São
Carlos. Sabia que era santo, mas não santo "de quê". Descobriu que
era da fundação de seminários. Pois bem, já não servia mais. Cansado, desistiu
de santificar, pois amor suprafraternal é coisa dos homens. Finalmente pegou um
livro. Voltou-se às fórmulas. Bregamente lembrou-se de Matemática de amar.
Risos abafados. Náusea conjunta. Mesmo
que disfarçado pensava muito nela. Como causa e solução. Realmente não via
explicação na atração. Mas que gostava, gostava. Queria resumir tudo, mas
preferia deixar expandido. Se o coração bater forte e arder... e o dele ardia,
batia, ritmado, desritmado, compulsivo, tranquilo, misturado, jogado, largado,
acompanhado. Cansado. ...Feliz.
Sopro.
Hora do almoço é perambular. A penumbra diurna do céu se faz ideal; especialmente quando não se quer incômodo. Parecia a vida lhe devolvendo liberdades. Quem sabe era hora de acordar. Viver um sonho. A vida tecnicista é o extermínio de um cérebro afoito. Corrosão. As vezes é mais fácil escapar. Aonde estaria o consumo inerente? Você não se lembra. As compulsões ainda são as mesmas. Parecia a vida lhe pregando peças. Era esvaziar a carteira. Queria um elevador. Uma cortina de água. Um pupilo para contar as enormes peripécias da humanidade. Mas o que cabia dentro de si? Toda a sapiência era eruditamente mascarada. Esse dia é perfeito. Você torna a andar com uma vontade descabida. E pensar que sempre foi assim. Instável. Parecia a vida lhe dizendo. Os pingos nos jotas são um critério à sua maneira. Mas o sinal soa. O corpo treme. A rotina prossegue. Alguém manda avisar-lhe que é apenas mais um dia. Os coletivos eram os braços e pernas numa só finalidade. Acha que a vida já lhe fez tudo? Engano. Quiçá a hora de pensar no que sente.
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