Evaporar.
Debaixo do toldo da padaria você mordia um pão seco e insípido tal como a sua morbidade. Tudo tão bucólico naquele dia. Tudo tão bucólico a sua vida inteira. Muito simples. Andou. Atravessou a praça e ali viu. As pombas contornavam o caminho dela. Apressada. Um rastro de mulher cruzou a sua sombra. Num salto um salto quebra-se. Tornozelo torcido; uma tragédia contemporânea. Desconcerto e folhas voando com as pombas. De repente, um ímpeto se destaca. O seu. Queria ajudar. Queria ajudar e dizer um oi. Escorou-a em uma rampa com corrimão. Você apontou a loja de calçado e, com os pés nus salpicou passos até lá. Você catou as folhas ao vento. Juntou-as, organizou-as, leu-as razoavelmente. Foi até a loja e a moça não estava mais lá. Suspiro desalentado. Saudade desconhecida. Era aquela mulher ali que você havia tocado. Era aquela mulher que foi-se e por isso lhe tocou. Os papéis voadores viraram recordação. De volta a padaria, pediu um café. Sorveu uma lembrança; tão perto e tão vaga. Dos papéis, o cheiro de um perfume cítrico. Do salto, um pedestal para exaltar os desejos casuais. Acostumar.
Inconteste.
Já é lá pelas tantas horas da noite e você já passou da hora de sair do trabalho. Terminou as ligações, fechou a contabilidade e dirigiu-se para o cafezinho. Sorveu um pingado velho, tirou a gravata e pôs no bolso. Dentro do bolso da calça a recordação: um bilhete da filha; era, enfim, o primeiro aniversário que você iria vê-la, depois de 15 anos sem direito a custódia. Você levaria um presente especial. Atravessou a rua, viu bijuterias de um camelô amigo do pasteleiro. Teve receio e não comprou. Chegou na festa. Viu a filha; formosa, linda. Quase não a reconheceu. Abraçou-a apertado e disse que esqueceu o presente, que traria numa próxima visita. Traria. Envergonhou-se mentalmente, pois 15 anos depois da traição da esposa não tomara juízo para consigo mesmo. Traíra. O que é uma vida sem vida? Sua perspectiva era uma planilha de Excel; um documento guardado em uma mente eletrônica burra. No limiar de si, quem é o vilão? A esposa dona de casa, o marido work-a-holic ou a secretária ordinária da mesa ao lado? O culpado é quem se submete; seja a tentação, o descaso, a inveja ou a conspiração. O pecado é deixar-se acreditar. Teimosia.
Imensurável.
De repente resolveu descer as escadas. Sem rumo, decidiu descer até o penúltimo andar da estação, na linha X. Ela estava lá. Você agora sem fôlego. Pra que tão depressa? Hoje é sexta-feira; já é tarde. Ela deixa cair um papel. Alguém pisa, segura e entrega de volta. Era um moço alto, negro. Ela agradece discretamente e entra no vagão do trem, perguntando as horas para uma senhora. Você também entra, empurrando as pessoas. Ela te olha, reconhece e lembra de você. Escancara um sorriso estranho. Ela envelheceu. Quanto tempo passou. Você segue ela; faz baldeação, troca de trem e ela avisa que vai descer estação antes da sua. Antes de sair, você vai dizer que ainda a ama. Não dá tempo. E agora, vai cabular o trabalho de novo? Do outro lado da cidade, alguém te liga. Sua namorada pede para assistir um filminho. Do outro lado do coração, alguém não se toca.
Estrondo.
Camisa abotoada, bermudas e mocassim marrom. Domingo é dia de passear. Pegou o automóvel e saiu para buscar os filhos. Cheiro de carro novo. Vontade de beber água de coco. O calor ardia à pele branca da menina mais velha. Passaram no drive trhu de uma lanchonete; compraram sorvetes. Vontade de tomar um banho na água do mar. Pararam para abastecer, compraram quadrinhos e pediram informações. Cheiro de gasolina. Desabotoou levemente a camisa para compensar o calor. Saíram, embora, sem rumo. Sem resistência nenhuma chocaram-se com um veículo apressado. Gritos. Sirene. Assistência. Cheiro de óleo queimado. Todo mundo estava bem, exceto o que dirigia. Vontade de tirar satisfação. No outro carro, alguém estragou uma suspensão, um farolete e um dedo médio. Em suma, um estrondo. Quem tem razão? Cheira a fim de semana acabado. Vontade de esperar segunda-feira calado.
Estranho.
Deitou-se. Cansara daquele dia. Havia muita poeira, muito torpor. Não dava para acreditar naquilo tudo. Cansara daquela vida. Queria vestir uma roupa diferente. Saíra à procura e vestira-se. Pagara barato; o brechó fora ideal. Todos o olhavam, era estranho. Andara engraçado. Passara a entender tudo como deboche. Sem olhar para trás. Arrependimento era um ponto fraco. Ouviu música. Animou-se; agradou as pessoas ao redor. Pedira as horas, os cumprimentos e uns trocados. Andou depressa em direção a uma marcha de carnaval. Dançou. O calor borrou a maquiagem. Recompôs-se à sombra de uma árvore frondosa. Não era aquilo que havia pensado. Omitira-se. Saíra por uma travessa e encontrara-se casualmente sozinho. Era você ali, no topo do edifício. Esfregara os olhos, sentira-se ameaçado. Talvez uma ironia; uma incoerência tomara conta de si. Acordou assustado. Era um pesadelo qualquer. Abandonou o quarto e foi ao brechó.
Paara.
Entrou, sentou e esperou começar. Era mágico, uma espécie de timbre que tocava o âmago inexplicavelmente. Ficou de pé; era o começo. Gritou, falou alto e ninguém o ouviu. Na penumbra, era invisível a sua aparência. Tocaram a primeira. Um choque atravessou seu corpo. Cantou a segunda. Beijou. Não sabia quem era. Talvez só o momento. Depois bebeu, dançou, caiu, seguiu em frente e cantou a terceira. Não sabia mais o que faria. A cabeça não pensava em mais nada. O coração não insurgia. Mas de repente apareceu um rosto conhecido. Era a primeira, aos prantos. Na primeira, o desalento. Na segunda, a libido. Na terceira, a embriaguez. Parou de andar. Escorou-se num muro e pôs para fora toda a impureza. No revés, respirou fundo. Caiu em si e atravessou a rua. Não era aquilo mesmo. Não era ninguém.
Absorva.
Estacionei na esquina. Foi entrar ali e ver. Você beijava como ninguém; mas era outra pessoa. O som, o tom e a minha cor empalideceram, direcionados a chocar a ojeriza própria. O meu corpo pedia o seu. O meu sonho, não. As verdades se fizeram tão presentes; a minha razão estática, o sentimento também. Você me via, mas só eu lhe enxergava. Beijei-lhe no rosto. Tirei-lhe uma foto. Sorri. Os dentes e o rosto cumpriram uma ordem forçada. O corpo também; já não valia mais nada. O âmago doeu; rasgou-se feito véu num limbo que só existiu pra mim. Sorvi água com quinino e sofrimento. A amargura estava montada. O escarcéu mental estabelecido. Sorri. Não me despedi; Alcancei o carro e tropecei em mim mesmo. Corri atrás de um motivo para chegar em casa. Sumi. Cortina de ilusões.
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