Segregação


Foge. Como foge. Não dá mais pra saber. Irritante e elegante. Sabe o que quer. Eu é que não sei. Têm na cabeça ambos os pensamentos. Tudo sai do controle. A meu ver, tudo some. Você, principalmente. Alternância desigual. Você, Eu, Eu, Ninguém. E tudo se vai como se nada tivesse ocorrido. Canso. Procuro em outros rostos o seu, mas nada me vem. Nada é igual. Pureza, simplicidade e elegância. Duas vidas tão distintas duas almas tão diferentes que tentam se unir, mas nada conseguem. As almas querem, os corpos se julgam capazes, mas a mente bloqueia. Por que. Por quê? Eis uma questão pertinente. Cabe a você respondê-la. Cabe a nós resolvê-la.

Enguia (revisado)


 Com você. Sozinho. Com você, e sozinho. Em pensamento. Corporal. Você sabe me querer. Eu sei que te quero. Em tudo nos apoiamos, mas você não me afirma. Não se firma. Não me mostra. Foge. Desliza. Escapa pelos meus dedos, mas te prendo no peito. Linda, sem defeitos. A meu ver. Igual. Diferente. Curto e longo. Cultivo sem medo. Receoso. Bastava tu adular tiquinho meu. Adular-te sem retorno é intragável. Só um tiquinho e tu aí, com esse sorriso impenetrável. Teu charme me mata. Tua indecisão me mata. Nos mata. A cada dia que não me quer, te quero menos. Quero-te mais. Inconstância inconsistente. Saudades suas. Um vai e vêm que não nos mantém. E me olha. Desejo-te. Que juntos, num segundo a mais desse olhar se faz um sonho, que acordado é muito mais do que dormindo. Ao dormir, ainda te vejo. Cada vez mais perto. Lábios selados. Corpos grudados. Sem fusões precoces. Juntos. Vidrados. Será possível?

Só.

Fugi como quem corre do sol. Por um minuto parei de pensar em você, de repente. É tudo tão estranho; tão distante. E agora a saudade amarga. Invunerável. E todo sonho acusa. E então, numa sucessão de fatos, eu espero o mundo parar de girar para eu voltar atrás. Qual engodo me socorre? É como atender uma ligação gravada. Já está feito. Dois destinos incapazes de se cruzar. Novamente, eu não tenho a célebre alucinação de dois em um. Mas em mim sobra uma lastimável dor. Bursite. Ao redor dos ossos, os músculos originam-se e inserem-se de uma maneira sinérgica e antagônica. Ao redor dos sonhos, idéias se entrelaçam e findam num estalo de dois olhos abertos. De toda forma, onde eu me encaixo? A cabeça se quebra em mil partes num enigma que só você sabe a resposta. Se as rodovias dos meus destinos possuíssem retorno, eu estaria em pista dupla atrás de ti. À contramão eu me contorno. E onde eu me tenho, é tarde demais. Caio em mim numa via única e só sigo em frente. Distinto dilema. Dessa vez a vontade vai esperar.

Flores Amargas


Não se sentia nada. Não era preciso falar. Era tudo o menos que mais. Quando queria se expressar, não se deixava. Aceitava tudo com singela timidez. A voz, muitos não conheciam. O que se passava em sua cabeça, o mesmo. Ás vezes, até o nome era dessabido. Se bem, tudo era nulo. Agia sem impulsividades. Submissão. Agradava a todos, e assim, a si mesmo. Sem objetivos claros. Almoçava os elogios. Seu ego era o único nutrido. E a magreza ajudava ainda mais a não fazer notar-se. Sumia. Aparecia um bom tempo depois. Ninguém reclamava. Nem procurava. Família, todos desconheciam. Até ele. Pensa-se que surgiu no mundo do nada. Gostava de esconder em seu quarto e fazendo sabe-se lá o quê, sozinho. Morava num cantinho abandonado. Quieto. Acostumado. Ninguém sabia de seus gostos. Nem de sua paixão. Nem tentava. Nem derrota, nem sucesso incerto. Mal sabia o que era. Achava comum o sentimento. Nunca. Nada. Nem um pouquinho. De certo, adoeceu. Padeceu. Seu corpo continua na cama, onde o fato se sucedeu. É que até pra morrer, você tem que existir.

Incessante


Saudade de te procurar. Em cada esquina, lá estava eu. O que tentava mesmo era me equilibrar no meio fio da avenida. Se esguiando por entre os carros. Procurei nos cantos mais obscuros e obséquios que existiam. E nada. Desisti. Um dia, uma borboleta virá e sentará. Equilíbrio harmonioso. Daqui a tantos anos. Tudo sempre tão adiável. Nunca procure meu caro. Nunca. As coisas te acham quando querem, e as pessoas, o mesmo. Tudo é passível de uma explicação, mas não a busque. As necessárias se revelam. Você estava ali. Revelou-se a mim. Cânfora queimando. Ardência inigualável. Pulsação. Mistura melancólica. Ninguém sabe explicar, nem você mesmo. Você sabe o quanto é pra ti. Sempre soube. Desabafo mais que concreto. O feeling muda. As expressões também. Resta a maldita esperança. Maldita, sim. Não deveria de estar ali. Tudo tão cretino. Ela quer mais que tudo, e eu, não. Você não quer. Não pedi pra ela existir. Mas agradeci por você existir. Proveito mais que esperado. Digressão finita. Ao se revelar, não percebi. Fiquei inerte. A inércia me levou a imobilizar as ações. Uma palavra. Sábio seria o gesto. Inculto. Incerteza ainda garantida.

Asco.

Igual a mim. Era olhar para as pessoas e tentar descobrir-se. Um obséquio era tentar redimir-se de algo que não existia. E a vontade estava ali. Deitada. O passado era um arremedo de todos os socos e pontapés inexistentes. Os pés o levaram à esquina mais próxima. Voltar ali era assistir tudo de novo. E crer que enfim existiu. Sem ter medo. O que pode mais lhe acontecer? De todas as vidas, qual mais lhe impressionava? Todo esse dinheiro do capital perverso. Toda essa malícia que no fim não lhe serviu. E o problema foi não mais encontrar-se. Daí todo mundo sabe; é aquela ciranda que não existem dois à rodar. Eis um homem que deparou-se sem imagem ou semelhança. O reflexo te fez sair dali. Por um instante um instinto valia à pena? E crer que tudo existiu? Onde estão as provas, afinal? Por meias palavras você pos tudo a ganhar. Agora era sentar na calçada e esperar a próxima oportunidade. Um meio fio é testemunha incrédula da paciência. Onde é que você se meteu? Não disse? Que nem a mim. Igualzinho a mim. Sem preço ou carimbo, você cometeu. Sem meias palavras, você não entendeu.

Palavro


Ao mesmo tempo, era o insuperável. Não conseguia explicar ao certo o que sentia. Mas era muito mais que gostoso. Melhor ficou quando foi correspondido. A sensação de se sentir quisto, não tinha igual. Reciprocidade mais que positiva. Hiperativa. Enlaces. O pão caseiro, já tinha assado e estava pronto. Me veja uns 2 por favor. Chegou a casa. Líquido a sair do pó. Máquinas ligadas. Chimia na bandeja. Manteiga também não poderia faltar. Colocou as xícaras. Acordou-a. Surpresa. Aspiram ao primeiro gole de café, sem rotineirismo. Tão mais gostoso, embora não tivesse nenhuma diferença, nenhum ingrediente adicional. Talvez tivesse. Carinho e cuidado adicionados pouco a pouco. O casal mais que feliz estavam juntos. Realmente era um casal e não só dividiam nomes e casa. Dividiam sonhos, esperanças, desejos. Conquistas. Quem iria dizer que ambos iriam se juntar? Nem eu. Nem ela. Nem ele. Você?