Feira sem preço


Ah, o término. Enfim liberdade. Ainda estava exposto o sentimento mal acabado. Aliás, mal começado. Tudo correra tão rápido que não era espantoso o fim. Ao telefonema, noite planejada. A dúzia de amigas, conforto. A música seria uma piscina, com retorno só para ar. Banhou-se e vestiu-se. Pôs uma saia que a fazia se sentir estranha - não a usava desde o começo do namoro - o último, no caso. O Ex não gostava, achava muito curta. É essa mesma. O maço de cigarros jogou no lixo. Vestígio da imundice anterior. Tudo tem seu lado positivo, limpeza. Open bar, comida se faz mais que necessária. O pedaço do bolo tragado em poucas mordidas. Carona na porta. Carro apertado, coração animado. A fila não era obstáculo e sim alegria - troca de olhar sem censura. Talvez houvesse uma expansão. A pista de dança, um mar de éter, embriaguez e mistura. Jogou-se e não queria mais sair. Uma aproximada e uma negação. Outra aproximação e nada feito. Ela faria as regras. Olhou-o de longe. Quis ir, mas receou - o ultimo em que chegara foi o responsável por uma de suas maiores tristezas. Pé atrás, mãos nas costas, passadas empurradas adiante. Oi. A troca de olhar estava mais que implícita. Por sorte havia pintado a boca de vinho. Escreveu-a na dele. Sem palavras, apenas desejo. Contato. Um bocado de sentimento, talvez. Será ele que vai me oferecer o buquê um dia? Deitada na cama, seu corpo repousava e a mente relutava a mudança.

Aquecido.

É muito fácil dormir. Resolver não pensar em nada. Estar entregue; solícito ao inconsciente. Mas e todos os seus projetos? Não vai mais sentar para escrever? De onde vem a calma para suportar-se. Você não sabe. Talvez o medo de não ser mais o primeiro o consolasse. Vice posição seria um suicídio. Abriu uma pasta de arquivo e derramou-se em todas as suas palavras. Organizou-as ordenadas numa coesiva hipótese de um brilho único. Mas não era só fechar a pasta. A partir de agora, todas as idéias resultantes são grandes apelos. Pior. Fez-lhe ver através das portas. Revelando a seqüência inteira. Partir dali talvez não seria um erro. O revés seria fechar os olhos. Eis então o homem que não mais pisca. Os punhos comprometidos, as pernas inquietas. Eram tantas portas, tantos caminhos. Todos os objetivos refletidos num espelho que atravessa projeções. Era acabar ou acabar-se. Pregueado. Não é mais você; apenas uma força de vontade. Olhou o sol a nascer e quis desejar um boa noite. Olhou para si mesmo e concluiu-se, de qualquer forma. Sem fome, com sede. O café é adoçado para agüentar-se. A vigília não fora a primeira. O copo de café, inconteste. Os olhos entreabertos sonham ainda acordados. Era hora de ser o primeiro. Sem acordos, cessou. Era mais fácil trocar noite por dia. Era mais fácil que abandonar tudo e viver em paz. Capaz que negar-se seria o próximo passo. Sujeito inválido. Era voar dali para impressionar. Sem conserto.

Cobradora.

Descompassado. Não entendera porque os prédios eram tão inclinados. O que te tornara tão inseguro? Um olhar é desviado. Queria que as edificações caíssem; colidissem de alguma forma. Um coletivo o salvaria? A avenida é o extermínio do homem-causa dos grandes desabamentos. Saiba que você não é o único num engodo iludido. O ônibus era um escape e um atraso, ao mesmo tempo. De um lugar para o outro. Rumo certo. Projétil decidido. Sentiu falta de si. Você não era tão emocional. Um almoço é bala; mas não estava na hora. Era o momento de parar. De decidir se ali ia ficar. A felicidade era um prato que se comera frio embora o almoço hoje sejam apenas negócios. Talvez fosse melhor andar por ali, ou então dependurar-se nos seguradores do coletivo. Mas uma refeição importante não vai acontecer. Não assim tão colérico. Estômago doendo. Você olha pra baixo, vê um sinal e não se entende. Os transeuntes esbarram-se. Pra quê trocar o sim pelo não? Despeça dos argumentos. O terminal é como comida radioativa. Os sentimentos, no fim, duram mais que uma meia-vida. A avenida diz "termine".

Bochechas


Em breve mais uma sessão de pressão começava. Tranquilo, ao contrário da multidão que o cercava. Nenhuma platéia. Nenhum protagonista. Apenas coadjuvantes. Ali, ele era mais um. Apenas um. O chamado surgiu. Ela surgiu. Sentiu-se especial. Não "um". Era "o". Cavalheirismo. Entronou os braços, mas foi negado pela vergonha. Gentil, consentiu. Achou que o passeio teria alguma serventia. Teve. Além da esperada. Nada de serviçal e sim Companhia. Sensação nova. Tão nova que não conseguiu agir diferente e o ímpeto de ajudar o fez levar as malas. Carregou-as. Despediu-se. Rumou até a própria bagagem que além do peso físico o era mental: esqueci algo vital? Pensamentos o rodeavam. Ao retornar os pensamentos se esvoaçaram junto à multidão que agora era ausente. Para sua surpresa, ela estava lá - aguardando-o. Como nunca ocorrera antes. Sorte? Mudança? Sentimento? Provocação - sua grande consciência concluíra.

Gelos


Estandarte aberto. Peito estufado. Noite escarrada. Tudo se misturava em embriaguez. Os copos iam e vinham, mas a seriedade ficava. Pensou em se levantar, mas já era muito esforço. Comodidade. Os garçons o serviam, mas o que ele queria mesmo era uma companhia. Isso o dinheiro não podia dar. Ou podia. Não do jeito que queria. Pagar por companhia é a plena ausência de interesse. Talvez tenhamos que fugir sem você. E fugiram. Abandonaram. Todos seus pensamentos eram voltados a isso. Vida? De que adiantava se não poderia compartilhar nada com ninguém? Um vírus letal o atingiu: o abismo. Entrou em crise e tudo sumiu. Agora que reergueu,  os outros vieram. Na queda, ninguém o apoiou; na ascensão todos tentaram sugá-lo. Aí descobriu a sua amiga: a solidão. Desmotivou-se de tudo. O que era uma fuga virou o caminho. Arrombar de portas sem sentir dor. Todas trancadas e abertas. Carvalho podre. Desceu mais um copo a mesa. O banho o ajudaria. Na água fria se encontrou. Água benta sem benção. Deitou-se. Não havia mundo a seu redor. Não girava nada. Seu sonho era negro. A visão turva. Embaraçou-se e repousou. Acordou?