Laudo.

Um por um. Os pares juntos desfilam sincronizados em passos dados. Os corações entrelaçam-se numa espécie de sinfonia que eu não sei decifrar. Do outro lado da rua numa calçada larga existe um similar humanóide não pareado que pode ser eu. No fim do acostamento existe um dilúvio de sentidos que podem ser os meus. Diante da esquina está uma pessoa adorável e singular que pode ser você. De onde se admira, não se pode conter as vontades para sempre. E o contrair visceral, quem sabe, seja um começo. E de onde vem o tormento, o vigor, o calor escaldantemente quente e o andar descompassado é o imbróglio a ser decifrado quando eu lhe disser um oi. No mais tardar, debaixo do mesmo ponto de ônibus, às 17:30, numa multidão afoita, eu talvez lhe reveja numa nuvem de movimentos casuais que lhe distraiam enquanto eu tento expelir as idéias. E depois de todas as tentativas, de agir e conter-se, de sentar-se ao meio fio com os pés no asfalto, de esperar pelo outro dia na parada de ônibus, hei de partir perante a vontade de não sucumbir; e tentar com outro alguém alguma sinonímia dos adjetivos que me envolviam a você. De todo mal, me livrar; é fugir de si para enganar-se numa estratégia não compatível com a vida. Achar-se era necessário. Dentro de um coletivo moderno, um ser humano grita murmurios uníssonos incluso na multidão estática. Dentro de um cenário imaginário, uma situação lhe induz ao erro. Dentro de uma nova situação, uma catarse.

Canhoteiro


Um chute. Cruzado. Rumo ao gol - É o que me falta. Cá estou eu, de peito aberto pensando em ti. Poucos dias sem te ver. Muitos dias sem você. Cada vez que te vejo, é inexplicável. Tudo corre ao nosso redor sem sequer saber o que está acontecendo. Preferia meu tempo de criança: ingênua, pura e tola. Hoje mal sabemos nos definir. Hoje, mal sei te definir. Hoje, mal sei definir o meu sentimento em relação a você. Hoje, mal sei definir o seu sentimento em relação a mim. Hoje, tudo o que sei é que estamos parados, quando já poderíamos ter avançado. E muito. Cada vez que me dá esperança, junto essas migalhas, esses centavos de teu amor. Vou conseguindo meus reais, juntando meu salário, que é pago por eu nutrir esse sentimento que não sei. Os deposito num cofre, que sem esperança se enche. Há dias em que está meio cheio; outros, meio vazio. Nunca atinge o zero supremo ou transborda. Sempre fica ali: Quase. Um dia pretendo abordar-te e expor tudo. Um Belíssimo Gol de Canhoteiro. Procurarei transbordá-lo e assim, juntar minha fortuna.

Perfil


Um espelho. A adrenalina corre. Teu corpo treme. A pupila dilata. Você não sabe o que fazer. Se enxergar é difícil. Ninguém te vê como você o faz. Como você quer. Alguns dissimulam fácil. Algumas. Tudo tão fácil de ser julgado. Pelos outros. Por si só, é árduo. Difícil. Nada íntegro. Todos somos filhos de Um só. Só não falamos as mesmas línguas. Nosso mal é que sabemos localizar os outros, mas estamos perdidos. Soltos. Insólitos. Jogados. Egoísmo - tão alto a ponto de achar qualquer altruísmo uma vontade de aparecer. Enquanto o altruísta se mata por prazer. Desejo. Vontade de ajudar. Feche os olhos e procure tua essência e teus erros. E morra. Renasça. Feliz. Ame. Seja. Você?

Segregação


Foge. Como foge. Não dá mais pra saber. Irritante e elegante. Sabe o que quer. Eu é que não sei. Têm na cabeça ambos os pensamentos. Tudo sai do controle. A meu ver, tudo some. Você, principalmente. Alternância desigual. Você, Eu, Eu, Ninguém. E tudo se vai como se nada tivesse ocorrido. Canso. Procuro em outros rostos o seu, mas nada me vem. Nada é igual. Pureza, simplicidade e elegância. Duas vidas tão distintas duas almas tão diferentes que tentam se unir, mas nada conseguem. As almas querem, os corpos se julgam capazes, mas a mente bloqueia. Por que. Por quê? Eis uma questão pertinente. Cabe a você respondê-la. Cabe a nós resolvê-la.

Enguia (revisado)


 Com você. Sozinho. Com você, e sozinho. Em pensamento. Corporal. Você sabe me querer. Eu sei que te quero. Em tudo nos apoiamos, mas você não me afirma. Não se firma. Não me mostra. Foge. Desliza. Escapa pelos meus dedos, mas te prendo no peito. Linda, sem defeitos. A meu ver. Igual. Diferente. Curto e longo. Cultivo sem medo. Receoso. Bastava tu adular tiquinho meu. Adular-te sem retorno é intragável. Só um tiquinho e tu aí, com esse sorriso impenetrável. Teu charme me mata. Tua indecisão me mata. Nos mata. A cada dia que não me quer, te quero menos. Quero-te mais. Inconstância inconsistente. Saudades suas. Um vai e vêm que não nos mantém. E me olha. Desejo-te. Que juntos, num segundo a mais desse olhar se faz um sonho, que acordado é muito mais do que dormindo. Ao dormir, ainda te vejo. Cada vez mais perto. Lábios selados. Corpos grudados. Sem fusões precoces. Juntos. Vidrados. Será possível?

Só.

Fugi como quem corre do sol. Por um minuto parei de pensar em você, de repente. É tudo tão estranho; tão distante. E agora a saudade amarga. Invunerável. E todo sonho acusa. E então, numa sucessão de fatos, eu espero o mundo parar de girar para eu voltar atrás. Qual engodo me socorre? É como atender uma ligação gravada. Já está feito. Dois destinos incapazes de se cruzar. Novamente, eu não tenho a célebre alucinação de dois em um. Mas em mim sobra uma lastimável dor. Bursite. Ao redor dos ossos, os músculos originam-se e inserem-se de uma maneira sinérgica e antagônica. Ao redor dos sonhos, idéias se entrelaçam e findam num estalo de dois olhos abertos. De toda forma, onde eu me encaixo? A cabeça se quebra em mil partes num enigma que só você sabe a resposta. Se as rodovias dos meus destinos possuíssem retorno, eu estaria em pista dupla atrás de ti. À contramão eu me contorno. E onde eu me tenho, é tarde demais. Caio em mim numa via única e só sigo em frente. Distinto dilema. Dessa vez a vontade vai esperar.

Flores Amargas


Não se sentia nada. Não era preciso falar. Era tudo o menos que mais. Quando queria se expressar, não se deixava. Aceitava tudo com singela timidez. A voz, muitos não conheciam. O que se passava em sua cabeça, o mesmo. Ás vezes, até o nome era dessabido. Se bem, tudo era nulo. Agia sem impulsividades. Submissão. Agradava a todos, e assim, a si mesmo. Sem objetivos claros. Almoçava os elogios. Seu ego era o único nutrido. E a magreza ajudava ainda mais a não fazer notar-se. Sumia. Aparecia um bom tempo depois. Ninguém reclamava. Nem procurava. Família, todos desconheciam. Até ele. Pensa-se que surgiu no mundo do nada. Gostava de esconder em seu quarto e fazendo sabe-se lá o quê, sozinho. Morava num cantinho abandonado. Quieto. Acostumado. Ninguém sabia de seus gostos. Nem de sua paixão. Nem tentava. Nem derrota, nem sucesso incerto. Mal sabia o que era. Achava comum o sentimento. Nunca. Nada. Nem um pouquinho. De certo, adoeceu. Padeceu. Seu corpo continua na cama, onde o fato se sucedeu. É que até pra morrer, você tem que existir.