Chute.

Tão ébrio. O bar era a pedida do dia. Assim como a cerveja, os aperitivos gordurosos desciam um após o outro. Minha pressão alta, meu desprezo aos demais fazem com que eu seja um autista num recinto tão lotado. E sem muita gritaria, por favor. Meu time está jogando e eu não aceito desaforo de torcida de bairro. Um gol, e eu me excito. Uma virada humilhada e eu já não acredito mais. A mais feia derrota. O cotovelo inimigo me instiga a partir para a briga. Aos socos e pontapés, os homens me separam de um moço franzino e raquítico; vestido de sangue e um brilhante distintivo, eis a minha sentença.

***

No outro dia, a vontade de morrer. Mas a morte é compromisso demais quando se é pai de família. Entre algemas, desgosto e vergonha, o jeito é absorver tudo isso. Um ano de reclusão. O bom comportamento murchou essa sentença. Talvez a reflexão de quem realmente se arrependera grandemente. Os dias para acabar cabiam nos dedos dos pés. Uma família inteira pra rever. Se reconstruir. E no meio dessa guerra, recordar os bons costumes vem à calhar. Saindo do cárcere, vi os filhos. Vergonha. Há um mais novo, que sorri e saliva abundantemente. Minha esperança estava ali. Haveria de ser avô como nunca antes. Talvez desviar o foco. De todos os prazeres, ser fraterno é, sem dúvidas, o melhor de todos.



"- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada." (Oswald de Andrade)

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