Terceiro Ato


 Ele estava lá. Parado. A espera de alguém. Quem, já não sabia mais. Há alguns minutos, recebera uma mensagem de um número desconhecido dizendo que se quisesse ser feliz, deveria ir à praia e esperar por alguém em frente a um toco de madeira no qual estava  amarrado uma blusa vermelha. Andava tão pra baixo, que foi atrás de tal tronco. Encontrou-o. A blusa também. E um espelho. Olhava as horas. Faltavam dez minutos pro horário estipulado pela mensagem. Passaram se os dez minutos - ninguém chegou. Mais dez minutos - e nada. A ansiedade dava lugar à impaciência. Esta, por sua vez, acompanhava um frio na barriga. Meia hora de atraso e nada. Pensou ser enganação. Como pude ser tão tolo e ter acreditado que era realmente pra mim? Com certeza a pessoa que viria me viu ao invés da pessoa esperada e foi embora. Inútil pensar essa hora. Sentou-se e ficou admirando o mar. Uma dádiva. Aquelas ondas que vêm e vão. Aproveitou a oportunidade, jogou os shorts e a regata e com isso, se jogou. Lavou a alma. Deixou que aquela água concentrada tirasse tudo o que havia acontecido. Tudo. Até sua atenção tinha sido tirada. Ao vestir-se, encarou o espelho. E compreendeu. Nele, a imagem de quem o faria feliz. Voltou pra casa. Com um sorriso maior do que se espera de um encontro mal sucedido.

Ensaio


Preciso falar com você. Agora. Já não aguento mais. É muito tempo pra ser desperdiçado e não sei se há como recuperá-lo. Você sabe o que eu quero dizer e sinceramente, sei sua reação. Não era pra ser assim. Você está confundindo as coisas. Estou? E foi. Cada dia aumentou. Virou essencial. Você conseguiu tirar de mim um sentimento que não sei bem o que é, mas foi o mais próximo do ápice que eu pude chegar. Era muito novo para ser considerado amor, mas bem diferente dos sentimentos enlatados que consumi - prontos, modelados e sem garantia de retorno. Você me deu o que já pude receber de melhor: seu sorriso, sua companhia em tardes inteiras e a vontade de sorrir mesmo sem ter motivos. Você foi a única a me deixar assim. Não que eu seja frio e sólido, mas você me fez ficar menos ainda. Enxergava o tudo e o nada através de você. Ensinou-me a olhar mais para mim mesmo, embora eu não parasse de olhar pra você. Já não sei mais o que eu quero. Já nem sei mais se te quero. Tantos avisos sem resposta. Conversas negadas. Uma não literalmente - nem me venha com desculpas, embora não pareça, eu te conheço. Ou não. Hoje o que sinto é uma mistura de angústia por não te ver e o medo da verdade. E esta última insiste em me mostrar a sua talvez frieza. Ainda nos veremos no mínimo um ano inteiro. Só que hoje não teremos um Oi. Não teremos uma declaração. Nem um simples cumprimento. Meus lábios se recusam a encontrar seu rosto, e quiçá, seus lábios. Apenas insistem em proferir "Adeus".

Dura


Insisto. E não sei a razão. É esse fascínio que tenho guardado dentro de mim há tempos. O que sei, é um tanto descabido para tentar entender. Um tanto inacabado. Um tanto inexperiente. Um tanto quanto nada. Rogo frases já sem sentido, na esperança de extrair algum valor moral bom. Mas nada. Há 3 longos anos, penso na mesma história. No mesmo final feliz. E nas mesmas fugas para os mesmos problemas. E cresce. Como cresce. Inunda meu coração de sentimentos que já nem sei descrever. Nunca soube, sinceramente. Já os senti, e são iguais. O mais incrível é que não eram diferentes nem sinônimos, mas sim parônimos, tendendo a leve homonimismo. O que se sucede é mais uma confusão, pois os fatos se entrelaçam. Quando não é uma, é 'uma'. E assim se vai cada qual do seu jeito. Ambas somem, e ao mais simples, claro e mínimo sinal de contato, se perdem. Em meus pensamentos.  As encontro sem ter a mínima idéia do que é certo, é errado, é real, ou ainda é. E o é por si mesmo. E assim vão, interpondo-se nas entrelinhas dos meus pensamentos, meros devaneios, mas que sabem muito bem me torturar. Ou não. Quem sabe se não sou eu que me torturo? A frieza adquirida e o medo instaurado me impedem de refletir. E nenhuma conclusão é selada. Apenas que sou louco. Por quê ou quem, já não sei. Apenas sou e por isso, fim. Ou início.

Insônia

Atiça-me como um fera indomável. Em minha insensatez, jogo-me. Um lado para o outro. Na cabeça, idéias. Sublimes. Peçonhentas. Lembranças. Peçonhentas, também. Daquelas que você leva o dia inteiro pra esquecer. Juras. Ela estava ali, em meu ombro. Ah, se eu fosse diferente. De que adiantava chorar agora se o prazer ficou no emaranhado do passado? Penso que não fui o único culpado devido ao conjunto de acontecimentos. Sim, passei o dia inteiro, a noite inteira, e porque não dizer, dias inteiros com a mesma dúvida na cabeça: Porque eu entendi errado? Porque segui o caminho na direção oposta? Agora, jogado na cama, sem direito a devaneios, entendo. Duas vidas nunca caminham juntas. Em suas trajetórias, circulares, o máximo que ocorre é um tangeciamento. E esse sim, não tem hora determinada pra acabar. Assim, ela se vai. Com ela, toda a maciez e aconchego mental que sabe proporcionar. E minha vontade de...
Caí no sono.

Mil e Nenhuma

É como ter os conjuntos do 'Todo' e do 'Vazio' juntos, ocupando o mesmo espaço sem direito a promessas e acasos. São tantas, mas não é nenhuma. A única que é, some. Como o vento empurra a chuva em uma tempestade, esta arremessa o que está óbvio. Quanto mais tenta correr, mais tropeça nas verdades. Mentiras falsas se desfragmentam nitidamente em frente as suas pupilas, mas sua mente tende a não sorvê-las, transformando-te de frágil criatura a habilidosa e esguia. Sabes o que queres, mas não consegues expressar. Sinceramente, não quer . Não consegue causar a ira, pois a aparência dócil engana. Engana bem. Muito bem. A ingenuidade aparente disfarça todo e qualquer réles devaneio que sabes tramar. Mas ela sabe. E trança toda sua vida cuidadosamente. Eis que surge uma traça, das mais imprestáveis e corrosivas. As linhas da vida se entrelaçam e não sabes como fazer para desembaraçar o nó. O nó que se forma em sua cabeça, já nem sabia que existia. E existe. Por causa disso e daquilo. E ela sabe o nome, mas teima em insistir o anônimato. Resta à tão desprezível traça esperar sentada, para ser exterminada ou adotada. Um sim ou não tanto faz. O que importa é a solução dada. E não deixe a repugnante causa desse embaraço só. Pois a machuca. E dói. Como dói.