Amnésia


O tempo passava. Ela estava lá, parada. Esperando. Já até esqueceu-se de quem era. Sabia o nome, a importância, a fisionomia. Mas já não o identificava mais. Quando ressaltou que o intercâmbio era de apenas um ano, fez questão de dizer que nada iria mudar, que quando voltasse continuariam juntos. Mas mudou. Não era mais tão atencioso. Carinhoso. Não falava mais nada amoroso. O tom da voz mudara. Conseguia, com muito esforço, lançar um "amor" quando aparentava esquecer o nome da talvez amada. E assim tudo se amornou. O sentimento repousou, e por mais que tentassem acordá-lo, estava derrubado. Sem chance. A esperança ficava quietinha no canto dela. Não se expressava – e talvez assim, definhava. Mas resistia bravamente, não entregava os pontos. Para ela não restava alternativa. Estava presa naquele mundo caótico e não havia outros reinos para explorar. Bem no fundo, sabia que estava bem, e um dia, melhoraria.

Dózinha


 Um dia de trabalho. A rotina o fizera voltar ao lar sem esperança de outro caminho. Dois homens sentados, bebendo em frente ao portão, impediam o portão. Um aviso sonoro e um pedido formal. Sem resultados. Formalidade fora do carro, mas nada resolvido. Um punho cerrado acerta o lacrimal, e a visão turva. Somem. Em casa, cambaleante. Pronto socorro. Uma semana  afastado. Não aguenta o repouso, tendo o desacato na memória. Se fosse um desconhecido, não o perseguiria tanto. Mas era vizinho, conhecido. A vontade era escarrar a vida fora. A licença gerou maus créditos no trabalho e, por conseguinte, a demissão. Onze anos de rotina em troca de uma calcificação. Era muito e a partida se fazia como a única opção. Antes, uma briga conjugal. Uma faca certeira rumo ao peito, mas desviada a tempo antes de atingir o alvo. A lâmina aprofundou em algumas falanges e por milímetros, não afundou certeiramente. A despedida das crianças era o que mais doía. Mandaria dinheiro. As coitadinhas num pediram pra vir ao mundo. Foi à casa de amigos, traçando rotas. O leve aroma etílico, no ar - o mais sutil possível - lembrava aguardente. Ardente como a cara de choro ao se despedir do irmão. Mas foi. Decidiu que era hora de viver e não apenas ter vida.

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Texto dedicado ao sr. Amadeus. Que a força maior na qual ele crê, o guie e o ilumine em sua nova busca.