Motor.

Soube amar. Na sórdida manhã, o beijo na testa estampa o fim do sono delicado de alguém. Ela acorda, sorri e te corresponde com o mesmo estalo. Banho, café, pães, frutas e torta de maçã. Como você cozinhava bem. Tudo tão caseiro, tão farto. E sair para o trabalho era mais que esperado. Entre rumos diferentes, o encontro casual entre os mesmos carros que saíram da garagem. Era a vizinha. Formosa. Fora abrir a janela e enxergar os resquícios de uma bela noitada. De longe agora, entre o entremear dos carros, é o veículo familiar da esposa que vem à vista. Um caminho estranho. Parecia que havia algo de errado. São as coisas que fogem do cotidiano que beliscam as curiosidades inusitadas. De perto, a placa coincide. Foi estacionar ao lado para ver e crer. Uma traição descabida. Um homem enorme, cheio de mãos. Os dedos que percorriam todo o corpo. Inacreditável. Fora o seu arrancar brusco com o carro um desaviso para o caminhão cegonha. Você não deu chance de ela se explicar. Por trás de um vidro escuro, você tentara compreender os motivos. Talvez a queria demais. Por trás do muro da oficina, alguém era devassada. Quem sabe, você gostaria que ela morresse nessa culpa. Mas o ímpeto de ser imediatista fez com que somente a culpa lhe restasse. O pára-brisa é cúmplice de que a vida se esvai. Será que a sina do proibido é tornar-se trágico? De alguma forma ela vai se explicar. No outro dia, o desjejum. Do café amargo e o pão dormido, a mais sutil resposta.

Chute.

Tão ébrio. O bar era a pedida do dia. Assim como a cerveja, os aperitivos gordurosos desciam um após o outro. Minha pressão alta, meu desprezo aos demais fazem com que eu seja um autista num recinto tão lotado. E sem muita gritaria, por favor. Meu time está jogando e eu não aceito desaforo de torcida de bairro. Um gol, e eu me excito. Uma virada humilhada e eu já não acredito mais. A mais feia derrota. O cotovelo inimigo me instiga a partir para a briga. Aos socos e pontapés, os homens me separam de um moço franzino e raquítico; vestido de sangue e um brilhante distintivo, eis a minha sentença.

***

No outro dia, a vontade de morrer. Mas a morte é compromisso demais quando se é pai de família. Entre algemas, desgosto e vergonha, o jeito é absorver tudo isso. Um ano de reclusão. O bom comportamento murchou essa sentença. Talvez a reflexão de quem realmente se arrependera grandemente. Os dias para acabar cabiam nos dedos dos pés. Uma família inteira pra rever. Se reconstruir. E no meio dessa guerra, recordar os bons costumes vem à calhar. Saindo do cárcere, vi os filhos. Vergonha. Há um mais novo, que sorri e saliva abundantemente. Minha esperança estava ali. Haveria de ser avô como nunca antes. Talvez desviar o foco. De todos os prazeres, ser fraterno é, sem dúvidas, o melhor de todos.



"- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada." (Oswald de Andrade)